Livro

Deuteronômio

Em todos os manuscritos hebraicos, o Pentateuco forma um rolo ou volume dividido em seções maiores e menores chamadas parshioth e sedarim. Não é fácil dizer quando foi dividido em cinco livros. Isso provavelmente foi feito pela primeira vez pelos tradutores gregos do livro, a quem a Vulgata segue. O quinto desses livros foi chamado pelos gregos Deuteronômio, ou seja, a segunda lei, daí o nosso nome Deuteronômio, ou uma segunda declaração das leis já promulgadas. Os judeus designaram o livro pelas duas primeiras palavras hebraicas que ocorrem, Elle haddabharim, ou seja, “Estas são as palavras”. Eles dividiram em onze parshioth. Na Bíblia em português, contém trinta e quatro capítulos.

Deuteronômio consiste principalmente em três discursos proferidos por Moisés pouco antes de sua morte. Eles foram falados a todo o Israel nas planícies de Moabe, no décimo primeiro mês do último ano de suas peregrinações.

O primeiro discurso (Dt 1à 4:40) recapitula os principais acontecimentos dos últimos quarenta anos no deserto, com sinceras exortações à obediência às ordenanças divinas e advertências contra o perigo de abandonar o Deus de seus pais.

O segundo discurso (Dt 5 á 26:19) é de fato o corpo de todo o livro. O primeiro discurso é introdutório a ele. Contém praticamente uma recapitulação da lei já dada por Deus no Monte Sinai, juntamente com muitas advertências e ordens quanto ao procedimento que deveriam seguir quando se estabelecessem em Canaã.

O discurso conclusivo (Dt 27 à 30) relaciona-se quase inteiramente com as sanções solenes da lei, as bênçãos aos obedientes e a maldição que cairia sobre os rebeldes. Ele solenemente os exorta a aderir fielmente ao pacto que Deus fez com eles, e assim assegurar para si mesmos e sua posteridade as bênçãos prometidas.

Estes discursos ao povo são seguidos pelo que se pode chamar de três apêndices, a saber: (1), uma canção que Deus tinha mandado Moisés escrever (Dt 32:1 à 47); (2) as bênçãos que ele pronunciou sobre as tribos separadas (Dt 33); e (3) a história de sua morte (Dt 32:48-52) e sepultamento (Dt 34), escrita por alguma outra mão, provavelmente a de Josué.

Esses discursos de despedida de Moisés às tribos de Israel que ele levou durante tanto tempo no deserto “brilham em cada linha com as emoções de um grande líder que conta a seus contemporâneos a maravilhosa história de sua experiência comum. O entusiasmo que eles despertam, ainda hoje, embora obscurecido pela tradução, revela a sua inigualável adaptação às circunstâncias em que foram falados pela primeira vez. A confiança no futuro é evocada pela recordação do passado. O mesmo Deus que fez obras poderosas para as tribos desde o Êxodo cobriria suas Cabeça no dia da batalha com as nações da Palestina, que logo seria invadida. Seu grande legislador está diante de nós, vigoroso em sua idade de velhice, severo em sua aversão ao mal, sério em seu zelo por Deus, mas amadurecido em todas as relações com a terra por sua proximidade com o céu. A sabedoria magistral de suas promulgações, a dignidade de sua posição como fundador da nação e o primeiro dos profetas, impõe suas afirmações. Mas ele toca nossas emoções mais profundas pela ternura humana que respira em todas as suas palavras. No limiar da vida, ele fala como um pai dando seus conselhos de despedida àqueles que ama; disposto a partir e estar com Deus, ele tem servido tão bem, mas prolongando carinhosamente sua última despedida aos queridos da terra. Nenhum livro se compara ao Deuteronômio em sua mistura de sublimidade e ternura.” Geikie, Hours, etc.

Todo o estilo e método deste livro, seu tom e suas peculiaridades de concepção e expressão, mostram que ele deve ter vindo de uma só mão. Que o autor não era outro senão Moisés é estabelecido pelas seguintes considerações: (1) A tradição uniforme da Igreja judaica e cristã até os últimos tempos. (2) O livro professa ter sido escrito por Moisés (Dt 1:1; 29:1; 31:1,9-11, etc.), e foi obviamente destinado a ser aceito como sua obra. (3.) O testemunho incontestável de nosso Senhor e seus apóstolos (Mt 19:7-8; Mc 10:3-4; Jo 5:46-47; At 3:22; 7:37; Rm 10:19) estabelece a mesma conclusão. (4.) As frequentes referências a ele nos últimos livros do cânon (Js 8:31; 1Rs 2:9; 2Rs 14:6; 2Cr 23:18; 25:4; 34:14; Ed 3:2; 7:6; Ne 8:1; Dn 9:11,13) provam sua antiguidade; e (5) os arcaísmos encontrados nele estão em harmonia com a época em que Moisés viveu. (6) Seu estilo e alusões são também notavelmente consistentes com as circunstâncias e posição de Moisés e do povo naquele tempo.

Este corpo de evidências positivas não pode ser posto de lado pelas conjecturas e raciocínios dos críticos modernos, que argumentavam que o livro era de certa forma uma falsificação, introduzida entre os judeus uns sete ou oito séculos depois do Êxodo.

Adaptado de: Illustrated Bible Dictionary (Deuteronomy).