Bíblia

Gênesis 23

A morte de Sara

1 E foi a vida de Sara cento e vinte e sete anos; estes foram os anos da vida de Sara.

E foi a vida de Sara cento e vinte e sete anos. Sara é a única mulher nas Escrituras cuja idade, morte e sepultamento são mencionados, provavelmente para honrar a mãe do povo hebreu. [JFB]

2 E morreu Sara em Quiriate-Arba, que é Hebrom, na terra de Canaã; e Abraão veio para ficar de luto por Sara e para chorar por ela.

Abraão saiu de sua própria tenda para ficar à entrada da tenda de Sara. Aqui, luto descreve sua conformidade com o costume de ficar sentado no chão por um tempo; enquanto o chorar indica a manifestação natural de sua tristeza. [JFB]

3 E levantou-se Abraão de diante de sua morta, e falou aos filhos de Hete, dizendo:

E levantou-se Abraão de diante de sua morta. Ele provavelmente tinha se sentado no chão por alguns dias em sinal de tristeza, como era costume na época (veja Is 47:1; e Gn 37:35) e quando este tempo acabou, ele levantou-se e começou a tratar de um local de enterro. [Clarke]

4 Peregrino e estrangeiro sou entre vós; dá-me propriedade de sepultura convosco, e sepultarei minha falecida de diante de mim.

Peregrino e estrangeiro. Abraão descreve-se, numa expressão proverbial, como alguém cuja origem é estrangeira e cujo tempo de residência é incerto. Compare Lv 25:23; 1Cr 29:15; Sl 105:12; Hb 11:9. A mesma frase é empregada por Pedro em 1Pe 2:11 para descrever a brevidade e incerteza da vida na terra, e para indicar que a verdadeira cidadania está no céu. “Peregrino”, no Heb., pertence à terminologia da vida nômade; “estrangeiro”, da vida estabelecida. [Cambridge]

5 E responderam os filhos de Hete a Abraão, e disseram-lhe:

Observando o tratamento de Abraão com o povo de Hete, e muitas outras transações relacionadas nas Escrituras, parece que o povo tinha uma grande participação na gestão de todos os assuntos. [Benson]

6 Ouve-nos, senhor meu, és um príncipe de Deus entre nós; no melhor de nossas sepulturas sepulta a tua falecida; nenhum de nós te impedirá sua sepultura, para que enterres tua falecida.

um príncipe de Deus. Ou seja, uma pessoa que sabemos ser divinamente favorecida, e que consequentemente respeitamos e reverenciamos profundamente. [Clarke]

7 E Abraão se levantou, e inclinou-se ao povo daquela terra, aos filhos de Hete;

inclinou-se ao povo. O humilde comportamento de Abraão para com o povo da terra, sem dúvida, está em conformidade com os costumes da negociação oriental. Mas também é provavelmente aqui enfaticamente registrado para indicar a solidão de Abraão entre o povo da terra, e, portanto, em irônico contraste com o tempo em que seus descendentes conquistariam os cananeus e possuiriam seu território. [Cambridge]

8 E falou com eles, dizendo: Se queres que eu sepulte minha falecida de diante de mim, ouvi-me, e intercedei por mim com Efrom, filho de Zoar,

intercedei por mim. Abraão pede a mediação e ajuda desses heteus para que ele possa obter o que deseja. Em tais transações, grande parte do sucesso depende da influência exercida sobre o proprietário. [Whedon]

9 Para que me dê a caverna de Macpela, que tem na extremidade de sua propriedade: que por seu justo preço a dê a mim, para possessão de sepultura em meio de vós.

Macpela. Provavelmente significa “dobro” ou “duplo”. Provavelmente era uma caverna escavada na rocha sólida e dividida em duas partes, como era comum nos túmulos dos ricos. Leia mais sobre Macpela.

que tem na extremidade de sua propriedade (“seus campos” em algumas versões). Nos tempos patriarcais as pastagens nas montanhas, e em todo o país em geral, eram uma área aberta comum, ocupada por várias tribos independentes; enquanto as terras nos arredores das cidades, sendo cultivadas, eram divididas em pequenas porções, ou campos separados, que se tornaram propriedade exclusiva de certos proprietários. Embora cercas, como as erguidas aqui, fossem completamente desconhecidas no Oriente, a extensão dos campos separados era bem definida; e, na ausência de quaisquer limites naturais, algumas pedras grandes, ou pilhas de pedras, serviram como um marco para determinar os limites da propriedade de cada proprietário (ver Dt 19:14; 27:17; Jó 24:2; Pv 22:28). [JFU]

10 Este Efrom achava-se entre os filhos de Hete: e respondeu Efrom Heteu a Abraão, aos ouvidos dos filhos de Hete, de todos os que entravam pela porta de sua cidade, dizendo:

Efrom achava-se entre. Literalmente, estava “sentado” entre os filhos de Hete, na porta da cidade, onde as relações sociais eram exercidas, e todos os negócios eram realizados. Apesar de ser alguém de importância entre eles, ele provavelmente era desconhecido por Abraão. [JFU]

11 Não, senhor meu, ouve-me: eu te dou a propriedade, e te dou também a caverna que está nela; diante dos filhos de meu povo a dou a ti; sepulta tua falecida.

Como em Gênesis 23:6, temos aqui uma forma sofisticada de negociação. Observe as etapas sucessivas: Abraão em Gênesis 23:9 pede para comprar apenas a caverna; Efrom, em Gênesis 23:11 se oferece para dar todo o campo e a caverna por nada; Abraão, em Gênesis 23:13 se oferece para pagar pelo campo; Efrom, em Gênesis 23:15, menciona o preço da terra; Abraão em Gênesis 23:16 paga devidamente pelo campo e pela caverna (Gn 23:17).

12 E Abraão se inclinou diante do povo da terra.

Abraão se inclinou. Essa reverência por parte do patriarca é o procedimento oriental de agradecimento pela aceitação de um pedido; assim como em Gênesis 23:7. O próximo passo é fixar o preço. [Elicott]

13 E respondeu a Efrom aos ouvidos do povo da terra, dizendo: Antes, se for do teu agrado, rogo-te que me ouças; eu darei o preço da propriedade, toma-o de mim, e sepultarei nela minha falecida.

Abraão responde com sentenças curtas e descontínuas, reconhecendo a oferta generosa, mas insistindo em pagar o preço. Aqui, porém, ele faz uma oferta para “o campo”, não apenas para “a caverna no fim do campo” (compare Gn 23:9). Ele educadamente se recusa a reparar na sugestão de um presente, mas se oferece para comprar. [Cambridge]

14 E respondeu Efrom a Abraão, dizendo-lhe:

Efrom. O proprietário do campo e da caverna de Macpela.

15 Senhor meu, escuta-me: a terra vale quatrocentos siclos de prata: que é isto entre mim e ti? Enterra, pois, tua falecida.

a terra vale quatrocentos siclos de prata. É como se Efrom dissesse: “Já que você deseja saber o valor da propriedade, é esse; mas isso é uma ninharia que você pode pagar ou não, como lhe convém”. [JFU]

16 Então Abraão concordou com Efrom, e pesou Abraão a Efrom o dinheiro que disse, ouvindo-o os filhos de Hete, quatrocentos siclos de prata, de acordo com o padrão dos mercadores.

A palavra hebraica traduzida como mercador é de uma raiz que significa “viajar”, “migrar” e, portanto, “viajante”. No Oriente, nos tempos antigos, os mercadores viajavam com suas mercadorias de um lugar para outro (Gn 37:25; Jó 6:18) e mantinham seu comércio principalmente por troca (Gn 37:28; 39:1). [Easton]

17 E ficou a propriedade de Efrom que estava em Macpela em frente de Manre, a propriedade e a caverna que estava nela, e todas as árvores que havia na herança, e em todo o seu termo ao derredor,

Este e os versículos seguintes contêm, em linguagem minuciosa, a descrição da compra. A frase provavelmente representa a forma de uma escritura de venda, tal como foi incluída nos contratos hebreus. Detalhes minuciosos semelhantes são encontrados nas ações legais de venda da Babilônia. Observe a menção específica da propriedade, da caverna, todas as árvores, toda a fronteira, “em possessão…à vista dos…e de todos os que entravam pela porta da cidade”. [Cambridge]

18 Para Abraão em possessão, à vista dos filhos de Hete, e de todos os que entravam pela porta da cidade.

de todos os que entravam. Veja o comentário de Gn 23:10. As testemunhas necessárias da transação. Não há nenhum documento de comprovação, como acontece atualmente. [Cambridge]

19 E depois disto sepultou Abraão a Sara, sua mulher, na caverna da propriedade de Macpela em frente de Manre, que é Hebrom na terra de Canaã.

depois disto sepultou Abraão a Sara. Agora Abraão tem uma propriedade para enterrar seus mortos. Ele mesmo foi enterrado aqui (Gn 25:9), também Isaque, Rebeca, Jacó e Lia (Gn 49:31; 50:13). Não é notório de Abraão e sua semente que sua primeira e última propriedade na terra da promessa seja — uma sepultura? [Whedon]

20 E ficou a propriedade e a caverna que nela havia, para Abraão, em possessão de sepultura adquirida dos filhos de Hete.

A repetição de que o campo com a caverna foi vendido a Abraão pelos heteus como local de sepultamento, o que foi resultado da negociação descrita com, por assim dizer, precisão jurídica, mostra o grande importância do evento para o patriarca. O fato de Abraão ter comprado um sepulcro de forma rigorosamente legalizada como uma posse hereditária na terra prometida, foi uma prova de sua forte fé nas promessas de Deus e de seu cumprimento final. Nesta sepultura foram enterrados Abraão e Sara, Isaque e Rebeca; ali Jacó sepultou Lia; e ali o próprio Jacó pediu que fosse sepultado, declarando assim a sua fé nas promessas, mesmo na hora da sua morte. [Keil e Delitzsch]

<Gênesis 22 Gênesis 24>

Introdução à Gênesis 23

O fato de Abraão ter comprado um sepulcro de forma rigorosamente legalizada como uma posse hereditária na terra prometida, conforme está registrado em Gênesis 23, foi uma prova de sua forte fé nas promessas de Deus e de seu cumprimento final. Nesta sepultura foram enterrados Abraão e Sara, Isaque e Rebeca; ali Jacó sepultou Lia; e ali o próprio Jacó pediu que fosse sepultado, declarando assim a sua fé nas promessas, mesmo na hora da sua morte.

Leia também uma introdução ao livro do Gênesis.

Adaptado de: Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible. Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles – fevereiro de 2018.