Bíblia

Gênesis 22

Deus prova Abraão

1 E aconteceu, depois dessas coisas, que Deus provou Abraão, e disse-lhe: Abraão. E ele respondeu: Eis-me aqui.

Deus tentou a Abraão. Deus não incita ao pecado (Tg 1:13), mas tenta no sentido de provar, ou seja, ocasião para o desenvolvimento de sua fé (1Pe 1:7). [JFB]

2 E disse: Toma agora teu filho, teu único, Isaque, a quem amas, e vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que eu te direi.

Cada circunstância mencionada foi calculada para dar uma facada mais profunda no coração de Abraão. Perder seu único filho e também por um ato de sua própria mão! Que variedade de sentimentos conflitantes a ordem deve ter levantado! Mas ele ouviu e obedeceu sem murmurar (Gl 1:16; Lc 14:26). [JFB]

3 E Abraão se levantou manhã muito cedo, e preparou seu asno, e tomou consigo dois servos seus, e a Isaque seu filho: e cortou lenha para o holocausto, e levantou-se, e foi ao lugar que Deus lhe disse.

Abraão se levantou manhã muito cedo. Para que não houvesse nenhuma aparência de atraso ou relutância de sua parte, ele fez todas as preparações para o sacrifício antes de sair – os materiais, a faca e os servos para transportá-los. De Berseba a Moriá, uma viagem de dois dias, ele teve o doloroso segredo preso em seu peito. Tão distante um lugar deve ter sido escolhido por algum motivo importante. Geralmente se pensa que esta era uma das colinas de Jerusalém, na qual o Grande Sacrifício foi oferecido posteriormente. [JFB]

4 Ao terceiro dia levantou Abraão seus olhos, e viu o lugar de longe.

Deixando os servos ao pé (Gn 22:5), o pai e o filho subiram a colina, um levando a faca e o outro a madeira para queimar o sacrifício (Gn 22:6). Mas não havia a vitima; e à pergunta feita naturalmente por Isaque (Gn 22:7), Abraão contentou-se em responder: “Meu filho, Deus providenciará um cordeiro para um holocausto”. Supõe-se que o propósito desse ato extraordinário era para mostrar a ele, por ação em vez de palavras, o modo pelo qual todas as famílias da terra deveriam ser abençoadas; e que em sua resposta a Isaque, ele antecipou alguma substituição. É mais provável que suas palavras tenham sido faladas de maneira evasiva para o filho, ignorando o assunto, mas com confiança ilimitada de que aquele filho, embora sacrificado, seria, de algum modo miraculoso, restaurado (Hb 11:19). [JFB]

5 Então disse Abraão a seus servos: Esperai aqui com o asno, e eu e o jovem iremos até ali, e adoraremos, e voltaremos a vós.

eu e o jovem. As palavras de Abraão ou pretendem esconder a sua intenção; ou implicam esperança, contra toda esperança. [Cambridge]

6 E tomou Abraão a lenha do holocausto, e a pôs sobre Isaque seu filho: e ele tomou em sua mão o fogo e a espada; e foram ambos juntos.

a lenha do holocaustopôs sobre Isaque seu filho. Assim como o Filho unigênito de Deus carregando sua cruz de madeira para o Calvário (Jo 19:17).

ele tomou em sua mão o fogo. Que poderia ser um pedaço de madeira pegando fogo, ou brasas de fogo em um vaso. [Whedon]

7 Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai. e ele respondeu: Eis-me aqui, meu filho. E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha; mas onde está o cordeiro para o holocausto?

Meu pai. A narrativa, através da sua simplicidade, evidencia a sua própria genuinidade. Foi provavelmente repetida muitas vezes por Isaque aos seus filhos, e por eles transmitida, até que tomou esta forma escrita.

onde está o cordeiro. Uma pergunta muito perspicaz, dolorosa para o coração de Abraão, e que suscita a afirmação profética registrada no versículo seguinte, onde Abraão novamente diz com mais sabedoria do que pensava. Comp. Gn 22:5. [Whedon]

8 E respondeu Abraão: Deus se proverá de cordeiro para o holocausto, filho meu. E iam juntos.

Deus se proverá. No original hebraico, Elohim-jireh, “Deus verá”. Veja em Gênesis 22:14.

9 E quando chegaram ao lugar que Deus lhe havia dito, edificou ali Abraão um altar, e compôs a lenha, e amarrou a Isaque seu filho, e pôs-lhe no altar sobre a lenha.

Se o patriarca não tivesse sido sustentado pela plena consciência de agir em obediência à vontade de Deus, o esforço teria sido grande demais para a resistência humana; e se Isaque, então com mais de vinte anos de idade, não tivesse demonstrado igual fé em submeter-se, essa grande prova não poderia ter acontecido. [JFB]

10 E estendeu Abraão sua mão, e tomou a espada, para degolar a seu filho.

degolar. Matar a vítima com um corte na garganta.

11 Então o anjo do SENHOR lhe gritou do céu, e disse: Abraão, Abraão. E ele respondeu: Eis-me aqui.

Abraão, Abraão. Para a repetição do nome, indicando uma seriedade especial, compare Gn 46:2; Êx 3:4; 1Sm 3:10; At 9:4. O ato de Abraão é detido no último momento possível. O sacrifício de Isaque estava praticamente terminado, quando a mão de Abraão levantou a faca sobre seu filho. A sua entrega tinha sido completa. [Cambridge]

12 E disse: Não estendas tua mão sobre o jovem, nem lhe faças nada; que já conheço que temes a Deus, pois que não me recusaste o teu filho, o teu único;

O sacrifício foi praticamente oferecido – a intenção, o propósito de fazê-lo, foi mostrado em toda a sinceridade e plenitude. A testemunha onisciente igualmente declarou sua aceitação nos mais altos termos de aprovação; e o apóstolo fala disso como realmente feito (Hb 11:17; Tg 2:21). [JFB]

13 Então levantou Abraão seus olhos, e olhou, e eis um carneiro a suas costas preso em um arbusto por seus chifres: e foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-lhe em holocausto em lugar de seu filho.

eis um carneiro. Embora essa semente abençoada fosse agora tipificada por Isaque, a oferta dele foi suspensa até o fim do mundo, e entretanto o sacrifício de animais foi aceito, como uma garantia da expiação que deveria ser feita por aquele grande sacrifício. E é observável que o templo, o lugar do sacrifício, foi depois edificado sobre este monte Moriá (2Cr 3:1); e o monte Calvário, onde Cristo foi crucificado, não estava longe. [Benson]

14 E chamou Abraão o nome daquele lugar, O SENHOR proverá. Portanto se diz hoje: No monte do SENHOR se proverá.

O SENHOR proverá. No original hebraico, Yehovah yireh (ou seja, Jeová Jiré).

15 E chamou o anjo do SENHOR a Abraão pela segunda vez desde o céu,

pela segunda vez. A renovação e confirmação da bênção a Abraão exprime o reconhecimento divino da fé do patriarca. A bênção previamente concedida, é aqui renovada como recompensa pela obediência (Gn 22:18). [Cambridge]

16 E disse: Por mim mesmo jurei, diz o SENHOR, que porquanto fizeste isto, e não me recusaste teu filho, teu único;

Por mim mesmo jurei. Significando que não há ninguém maior que Ele. [Genebra]

17 certamente te abençoarei, e multiplicarei tua descendência como as estrelas do céu, e como a areia que está na beira do mar; e tua descendência possuirá as portas de seus inimigos:

certamente te abençoarei…A linguagem desta bênção combina a essência das bênçãos anteriores pronunciadas sobre o patriarca, sob três ênfases: (1) multiplicação da semente; (2) vitória sobre os inimigos; (3) felicidade universal.

como as estrelas do céu. Compare com Gênesis 15:5.

como a areia. Compare com Gênesis 13:16.

as portas de seus inimigos. Ver comentário em Gênesis 24:60. A frase significa conquista. [Cambridge]

18 Em tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porquanto obedeceste à minha voz.

Em tua descendência (“semente” no original)…Temos a autoridade de Paulo Gl 3:8,16,18) para restringir isso ao nosso abençoado Senhor, que foi a Semente pela qual todas as bênçãos de Deus de providência, misericórdia, graça e glória, devem ser transmitidas às nações da terra. [Clarke]

19 E voltou Abraão a seus servos, e levantaram-se e se foram juntos a Berseba; e habitou Abraão em Berseba.

e olhou, e eis um carneiro. Nenhum método foi mais admiravelmente calculado para dar ao patriarca uma ideia distinta do propósito da graça do que esta representação: e daí a alusão do nosso Senhor a ele (Jo 8:56). [JFB]

Os filhos de Naor

20 E aconteceu depois destas coisas, que foi dada notícia a Abraão, dizendo: Eis que também Milca havia dado à luz filhos a teu irmão Naor:

Milca. Ver Gn 11:27,29. O casamento de Naor com sua sobrinha provavelmente representa a fusão de duas tribos. [Cambridge]

21 A Uz, seu primogênito, e a Buz, seu irmão, e a Quemuel, pai de Arã.

UzBuzArã. Uz, filho de Arão, é mencionado entre os descendentes de Sem (Gn 10:23), e os nomes Uz e Arã ocorrem também entre os edomitas (Gn 36:28). Buz também é mencionado em Jeremias 25:23. E é notório que Jó era da terra de Uz (Jó 1:1), e Eliú era buzita, da linhagem de Rão (Jó 32:2). Nada certo, entretanto, pode ser concluído a partir dessas correspondências, e é bem conhecido que os nomes eram frequentemente repetidos em diferentes gerações da mesma família original. [Whedon]

22 E a Quésede, e a Hazo, e a Pildas, e a Jidlafe, e a Betuel.

Quésede. Alguns sugeriram que fosse o ancestral de um ramo dos chasdim, ou caldeus. Mas os caldeus de Gênesis 11:28 parecem ser anteriores a Abraão. [Whedon]

23 E Betuel gerou Rebeca. Milca deu à luz estes oito de Naor, irmão de Abraão.

Betuel. Conhecido apenas como o pai de Labão e Rebeca (veja o comentário de Gn 24:50). Os outros filhos de Naor não são novamente mencionados na história sagrada, com a única exceção aos maacatitas (Dt 3:14; Js 12:5; comapre 2Sm 10:6,8; 1Cr 10:1; 9:6). [JFU]

24 E sua concubina, que se chamava Reumá, deu à luz também a Tebá, e a Gaã, e a Taás, e a Maaca.

concubina. Uma mulher conjugalmente unida a um homem, mas em uma relação inferior à de uma esposa. [Easton]

<Gênesis 21 Gênesis 23>

Introdução à Gênesis 22

Em Gênesis 22, temos a evidência decisiva de que Abraão estava disposto a renunciar a tudo o que lhe era mais valioso por ordem de Deus, mesmo aquele filho cuja vida dependia do cumprimento das promessas divinas. Mas a sua provação deve ser considerada também como a ocasião em que se realiza um avanço no padrão moral dos homens do seu tempo, que gradualmente se tornaria universal. Nos dias de Abraão, o sacrifício dos primogênitos era uma prática comum entre as raças semitas, e era considerado o ato mais agradável que os homens podiam oferecer às suas divindades. “Darei meu primogênito por minha transgressão, o fruto de meu ventre pelo pecado de minha alma?” (Mq 6:7). O horrível costume foi praticado pelos judeus nos dias sombrios de Acaz e Manassés (2Rs 23:10; 2Cr 28:3; 33:6), e por Messa, rei de Moabe (2Rs 3:27). O costume provavelmente prevaleceu entre as tribos em cujo meio Abraão habitava, e a ele foi estabelecido que mostrasse a sua devoção a Deus também desse modo. Considerando o pedido, independentemente como foi feito, como vindo de Deus, ele não hesitou nem demorou, embora seu coração deve ter sido esmagado pelo próprio pensamento. Abraão havia se comprometido a desistir de sua própria vontade pela vontade de Deus e, em cumprimento à sua obediência, estava disposto a sacrificar seu próprio filho. O auto-sacrifício é a prova suprema da fé, e Abraão não foi encontrado em falta (Hb 11:17-19). A vontade, porém, foi tomada como ação, e considerada prova suficiente de sua lealdade e obediência. E Abraão, e através dele o mundo, aprendeu que, longe de desejar o sacrifício humano, o SENHOR o abomina: que Sua adoração deve ser acompanhada de misericórdia, justiça e humanidade em Seus seguidores, e que a oferta mais aceitável é uma vida de obediência, fé e amor.

Leia também uma introdução ao livro do Gênesis.

Adaptado de: Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible e A Commentary on the Holy Bible. Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles – fevereiro de 2018.