Tiago 2

Advertência contra a parcialidade

1 Meus irmãos, não tenham a fé em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo tratando as pessoas com parcialidade.

tratando as pessoas com parcialidade – no original grego, em acepção de pessoas.

2 Pois se alguém entrar na reunião de vocês com anéis de ouro e trajes preciosos, e também entrar algum pobre muito malvestido,

reunião – no original grego, sinagoga.

3 e vocês derem atenção ao que usa o traje precioso, e disserem: 'Senta aqui, num lugar de honra', mas disserem ao pobre: 'Fica ali em pé' ou 'Senta-te abaixo do apoio dos meus pés',

Compare com Lc 7:44-462Co 8:9.

4 por acaso vocês não estarão fazendo discriminação entre vocês mesmos, e julgando com maus padrões?

julgando com maus padrões – no original grego, se tornando juízes de maus pensamentos.  Há duas ideias aqui: uma é que eles mostraram através deste comportamento que assumiram a responsabilidade de serem juízes, de se pronunciarem sobre o caráter de pessoas que desconheciam e sobre suas reivindicações de respeito (compare com Mt 7:1); a outra é que, ao fazer isso, eles não foram guiados por padrões justos, mas fizeram isso influenciados “pensamentos” inadequados. Eles não o fizeram por bondade; não por um desejo de fazer justiça a todos de acordo com seu caráter moral; mas por aquele sentimento impróprio que nos leva a honrar as pessoas por causa de sua aparência externa, ao invés de seu valor real. O erro no caso estava na sua presunção de “julgar” esses desconhecidos, como aconteceu na prática ao fazer essa discriminação, e então fazê-lo sob a influência de padrões de julgamento tão injustos. O sentido é que não temos o direito de formar um julgamento decisivo sobre as pessoas precipitadamente, como fazemos quando tratamos uma com respeito e a outra não; e que quando formamos a nossa opinião em relação a elas, deve ser por qualquer outro meio de julgamento que não seja a questão de saber se elas têm condições de usar anéis de ouro, e vestir-se bem, ou não. [Barnes, 1870]

5 Ouçam, meus amados irmãos: acaso Deus não escolheu os pobres quanto ao mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?

acaso Deus não escolheu os pobres quanto ao mundo – ou seja, aqueles que são desprovidos de bens. Este é o primeiro argumento que o apóstolo aponta porque os pobres não devem ser tratados com negligência. É que Deus fez referência especial a eles ao escolher aqueles que deveriam ser seus filhos. O significado não é que ele não esteja tão disposto a salvar os ricos quanto os pobres, pois ele não tem parcialidade; mas que existem circunstâncias na condição dos pobres que tornam mais provável que eles aceitem as ofertas do evangelho do que os ricos; e que, de fato, a grande maioria dos crentes são pessoas de vida relativamente simples. O fato de Deus ter escolhido alguém para ser um “herdeiro do reino” é agora uma razão tão boa para ele não ser tratado com negligência, como foi nos tempos dos apóstolos. [Barnes, 1870]

6 Vocês, porém, desprezam o pobre. Acaso não são os ricos que oprimem vocês e os arrastam para os tribunais?

Vocês, porém, desprezam o pobre (compare com Tg 2:3Sl 14:6Pv 14:31Pv 17:5Ec 9:15,16Is 53:3; 1Co 11:22).

Acaso não são os ricos que oprimem vocês (compare com Tg 5:4Jó 20:19Sl 10:2,8,10,14Sl 12:5Pv 22:16Ec 5:8Is 3:14,15Am 2:6,7Am 4:1Am 5:11Am 8:4-6Mq 6:11,12Hc 3:14Zc 7:10).

e os arrastam para os tribunais (compare com Tg 5:61Rs 21:11-13Atos 4:1-3,26-28; 5:17,18,26,27; 13:50; 16:19,20; 17:6; 18:12).

7 Não são eles que blasfemam o bom nome que foi invocado sobre vocês?

o bom nome – provavelmente o Nome de Cristo, pelo qual os discípulos eram conhecidos (At 11:26), e pelo qual sofreram (At 5:41; 1Pe 5:14-16).

que foi invocado sobre vocês. Uma expressão semelhante é encontrada no discurso de Tiago em Atos 15:17, em uma citação de Amós 9:12. [Pulpit, 1895]

8 Se vocês, de fato, cumprem a lei real conforme a Escritura: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo', fazem bem;

lei real (compare com Tg 2:12Tg 1:251Pe 2:9).

Amarás o teu próximo como a ti mesmo (compare com Lv 19:18,34Mt 22:39Mc 12:31-33Lc 10:27-37Rm 13:8,9Gl 5:14Gl 6:21Ts 4:9).

9 mas se vocês tratam as pessoas com parcialidade, cometem pecado, sendo condenados pela lei como transgressores.

tratam as pessoas com parcialidade – no original grego, fazem acepção de pessoas.

10 Pois quem guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, torna-se culpado de todos.

Em outras palavras, a lei real (Tg 2:8) é uma unidade; não se deve escolher quais mandamentos devem ser obedecidos, e quais devem ser ignorados.

11 Pois aquele que disse: 'Não cometa adultério', também disse: 'Não mate'. Portanto, se você não comete adultério, mas mata, torna-se um transgressor da lei.

Ele é Aquele que deu toda a lei; portanto, aqueles que violam Sua vontade em um ponto, violam tudo (Bengel). A lei e seu Autor têm uma unidade completa.

Os mandamentos ‘Não cometa adultério’ e ‘Não mate’ são escolhidos enquanto violações mais gritantes do dever para com o próximo. [JFU, 1871]

12 Assim, falem e procedam como os que serão julgados pela lei da liberdade;

julgados pela lei da liberdade (Tg 1:26) – ou seja, a lei evangélica do amor; não uma lei de constrangimento externo, mas de livre inclinação instintiva. A lei da liberdade nos liberta da maldição da lei, para que, a partir de então, sejamos livres para amar e obedecer voluntariamente (Rm 8:2-4). Se, por sua vez, não praticarmos o amor ao nosso próximo, essa lei da graça nos condena mais fortemente do que a antiga lei (Tg 2:13). Compare com Mt 18:32-35; Jo 12:48; Ap 6:16: “ira do Cordeiro” (misericordioso). [JFU, 1871]

13 pois o juízo será sem misericórdia sobre quem não agiu com misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo.

A misericórdia triunfa sobre o juízo. A “misericórdia”, ao invés de temer o julgamento de seus seguidores, se gloria contra ele, sabendo que não os pode condenar. Não que a misericórdia deles seja a base de sua absolvição, mas a misericórdia de Deus em Cristo para com eles, produzindo misericórdia de sua parte para com seus semelhantes, os faz triunfar sobre o juízo, que todos os outros merecem. [JFU, 1871]

A fé sem obras é morta

14 Meus irmãos, qual é o proveito se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Acaso a fé pode salvá-lo?

Acaso a fé pode salvá-lo? Está implícito nesta pergunta que a fé não pode salvá-lo, pois muitas vezes a forma mais enfática de fazer uma afirmação é fazendo uma pergunta. O significado aqui é que aquela fé que não produz boas obras […] não salvará ninguém, pois não é uma fé genuína. [Barnes, 1870]

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15 Se um irmão ou irmã estiverem necessitados de roupa e do alimento diário,

necessitados de roupa – no original grego, nus.

16 e algum de vocês lhes disserem: 'Vão em paz, aqueçam-se e se alimentem bem'; e não derem a eles as coisas necessárias ao corpo, qual é o proveito disso?

Vão em paz. Como se todas as necessidades deles fossem satisfeitas por meras palavras. As mesmas palavras na boca de Cristo, em quem diziam ter fé, foram acompanhadas por atos de amor. [JFU, 1871]

17 Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.

A crença em dogma, como a existência de um só Deus (Tg 2:19), que não se expressa em  boas obras, está “morta em si mesma”.

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18 Mas alguém dirá: 'Tu tens fé e eu tenho obras'. Mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé.

Mostra-me a tua fé sem as tuas obra. A pessoa que confiou na fé é desafiado a exibi-la, se puder, à parte das obras, como uma entidade distinta por si mesma. Assume-se que tal demonstração não é possível. Se ela quiser dar qualquer evidência de que tem a fé que salva, deve ser recorrendo às obras que negligencia e, possivelmente, menospreza. Por outro lado, o desafiante, a partir das obras, pode apontá-las como provas de algo além de si mesmas. Atos de amor, que resultam de uma vitória sobre si mesmo, não poderiam ter sido realizados sem […] uma confiança viva em Deus. [Plumptre, 1890]

19 Você crê que há um só Deus? Faz bem; os demônios também creem, e estremecem.

os demônios também creem, e estremecem. O significado aqui é que havia muito mais no caso referido do que mera fé especulativa. Houve uma fé que produziu algum efeito, e um efeito de caráter evidente. Na verdade, não produziu boas obras ou uma vida santa, mas tornou manifesto que havia fé; e, consequentemente, seguiu-se que a existência de mera fé não era tudo o que era necessário para salvar os homens, ou para assegurar que eles estariam seguros, a menos que se sustentasse que os demônios seriam justificados e salvos por ela. Se eles podem manter tal fé e ainda permanecer na perdição, os homens podem tê-la e ir para a perdição. Uma pessoa não deve concluir, portanto, porque tem fé, mesmo aquela fé em Deus que a deixa alarmada, que por isso está a salva. Ela deve ter uma fé que produza um efeito completamente diferente – aquela que conduza a uma vida santa. [Plumptre, 1890]

20 Ó tolo, você quer se certificar de que a fé sem as obras é morta?

a fé sem as obras é morta? Os manuscritos variam entre “morta” e “inútil” (Mt 12:36; 20:3). O significado é substancialmente o mesmo. Aquilo que não tem vida está sem a atividade que é a única prova de vida. [Plumptre, 1890]

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21 Acaso não foi o nosso pai Abraão justificado pelas obras, quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar?

o nosso pai Abraão – ou seja, nosso antepassado Abraão.

justificado pelas obras – diante das pessoas (Tg 2:18). Em Tiago 2:23, Tiago, assim como Paulo, reconhece que foi a fé de Abraão que foi contada como justiça na sua justificação perante Deus. [JFU, 1871]

22 Você pode ver que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada.

pelas obras a fé foi aperfeiçoada – ou seja, “por meio das suas ações, a sua fé se tornou completa” (NTLH).

23 E cumpriu-se a Escritura que diz: 'E Abraão creu em Deus, e isso lhe foi considerado como justiça', e ele foi chamado amigo de Deus.

cumpriu-se a Escritura – em Gênesis 15:6.

Abraão creu em Deus, e isso lhe foi considerado como justiça – em outras palavras, “Abraão creu em Deus, e assim foi considerado justo (NVT).

24 Vejam que uma pessoa é justificada pelas obras, e não somente pela fé.

justificada pelas obras – diante das pessoas (Tg 2:18). Em Tiago 2:23, Tiago, assim como Paulo, reconhece que foi a fé de Abraão que foi contada como justiça na sua justificação perante Deus. [JFU, 1871]

25 E de igual modo não foi também a prostituta Raabe justificada pelas obras, quando recebeu os mensageiros, e ajudou para que saíssem por outro caminho?

Pela natureza do ato de Raabe, está claro que ele não é citado para provar a justificação pelas obras como tais. Ela acreditou seguramente no que seus outros compatriotas não acreditaram, e isso em face de toda improbabilidade de que este povo não-guerreiro conquistaria a fortalecida Jericó. Nessa crença, ela escondeu os espiões com o risco de sua vida. Assim, Hb 11:31 nomeia isso como um exemplo de fé, e não de obediência. “Pela fé, Raabe, a prostituta, não foi destruída com os desobedientes” (NVI). Se faltasse um exemplo de obediência, o autor de Hebreus e Tiago dificilmente teriam citado uma mulher de carácter anteriormente mau, em vez dos muitos patriarcas morais e piedosos. Mas como um exemplo de graça livre justificando as pessoas através de um agente, em oposição a uma mera fé verbal, ninguém poderia ser mais adequado do que uma “prostituta” salva. Como Abraão era um exemplo de homem ilustre e pai dos judeus, Raabe é citada como uma gentia — alguém totalmente improvável — mostrando que a fé justificadora tem se manifestado a todos. A natureza das obras alegadas é tal que prova que Tiago as usa apenas como evidências de fé, em contraste com uma mera profissão verbal: não obras de caridade e piedade, mas obras cujo valor consiste apenas em serem provas de fé: elas eram fé expressa em ato, sinônimo da própria fé. [JFU, 1871, com adaptações]

26 Pois assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.

assim como o corpo sem o espírito está morto (compare com Jó 34:14,15Sl 104:29Sl 146:4Ec 12:7Is 2:22Lc 23:46Atos 7:59,60).

a fé sem obras é morta (compare com Tg 2:14,17,20).

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<Tiago 1 Tiago 3>

Visão geral de Tiago

Em seu livro, Tiago “combina a sabedoria de seu irmão Jesus com o livro de Provérbios em seu próprio chamado desafiador para viver uma vida totalmente devotada a Deus”. Tenha uma visão geral deste livro através do vídeo a seguir produzido pelo BibleProject. (8 minutos)

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Leia também uma introdução à Epístola de Tiago.

Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles, com adaptação de Luan Lessa – maio de 2021.