Bíblia

1 Pedro 2

1 Abandonai, portanto, toda malícia, toda enganação, fingimentos, invejas, e todas as falas maldosas,

Abandonai — de uma vez por todas: assim o aoristo grego expressa como uma roupa despida. A exortação se aplica somente aos cristãos, pois em nenhum outro existe a nova natureza que, na qualidade de “homem interior” (Ef 3:16), pode rejeitar o velho como uma coisa exterior, de modo que o cristão, através da contínua renovação do seu homem interior, pode também manifestar-se externamente como um novo homem. Mas aos incrédulos se dirige a exigência de que, interiormente, em relação à nous (mente), eles devem ser transformados, metanoeisthai (se arrependerem) (Steiger). O portanto retoma a exortação iniciada em 1Pedro 1:22. Visto que nascestes de novo de uma semente incorruptível, não vos emaranheis de novo no mal, que “não tem existência substancial, mas é uma ação contrária ao ser formado em nós” (Teofilacto). Malícia, etc., são totalmente inconsistentes com o “amor fraternal”, para o qual vós “purificastes as vossas almas” (1Pe 1:22). Cada um que se sucede nasce daquilo que imediatamente precede, de modo a formar uma genealogia dos pecados contra o amor. Da malícia nasce a enganação; da enganação, o fingimento (fingindo ser o que não somos e não mostrando o que realmente somos; o oposto de “amor sem fingimento” e “sem dissimulação”); dos fingimentos, invejas daqueles a quem nos julgamos obrigados a fingir; das invejas, falas maldosas, maliciosas e invejosas depreciações dos outros. O engano é a disposição permanente; os fingimentos são os atos que dele decorrem. Os puros não conhecem a inveja. Compare 1Pedro 2:2, “não falsificado”, no grego, “puro”. “A malícia se deleita no mal alheio; a inveja anseia pelo bem alheio; a enganação dá duplicidade ao coração; a hipocrisia dá duplicidade à língua; as falas maldosas ferem o caráter do outro” (Agostinho). [JFU, 1871]

2 e desejai ansiosamente, como bebês recém-nascidos, o leite da Palavra, não falsificado, para que por meio dele estejais crescendo para a salvação;

como bebês recém-nascidos. O substantivo grego, como o português, implica a primeira fase da infância. Ver Lucas 1:41,44; 2:12,16.

o leite da Palavra, não falsificado. A versão em português tenta expressar a força do original, mas recorreu a uma paráfrase um tanto inadequada. Literalmente, as palavras podem ser traduzidas como o leite racional (ou intelectual), tendo o adjetivo quase a força do “espiritual” em passagens como 1 Coríntios 10:3-4. O “leite” de que fala é aquele que alimenta a razão ou a mente, e não o corpo, e se encontra na forma mais simples da Verdade como é em Jesus que foi apresentada pela Igreja Apostólica às mentes de seus discípulos. Olhando para os outros exemplos de paralelismo entre a linguagem de Pedro e a das Epístolas de Paulo, dificilmente podemos estar errados ao pensar que também aqui ele reproduz mais ou menos o que leu nelas. A palavra “racional” aparece em Romanos 12:1, no mesmo sentido que aqui, e não é encontrada em nenhum outro lugar do Novo Testamento. O pensamento de que aqueles que ainda estão na infância espiritual, devem ser alimentados com o leite espiritual apropriado ao seu estágio, é encontrado em 1Coríntios 3:2. Compare também Hebreus 5:12-13. Há quase uma coincidência tão marcante em não falsificado (melhor, puro ou não adulterado), que expressa precisamente o mesmo pensamento que o das palavras de Paulo em 2Coríntios 2:17 (“não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus”) e 2Coríntios 4:2 (“nem falsificando a palavra de Deus”). O pensamento implícito na palavra é que, por mais simples que sejam as verdades que os homens ensinam, de acordo com as capacidades de seus ouvintes, elas devem em todos os casos ser livres de qualquer mistura de falsidade consciente. As palavras fixam a sentença de condenação sobre as “fraudes piedosas”, nas quais até os mestres cristãos e as Igrejas têm agido com muita frequência. Na palavra desejai, temos uma triste lembrança de que o apetite espiritual não é tão espontâneo como o natural. As crianças não precisam ser instruídas a procurar o peito da mãe.

para a salvação. Algumas versões omitem essas palavras, embora não prejudique o sentido do texto, o motivo ainda é desconhecido. [Cambridge, 1890]

3 se, de fato, já experimentastes que o Senhor é bom.

Pedro alude ao Salmo 34:8. Os primeiros “sabores” da bondade de Deus são seguidos depois por experiências mais completas e mais felizes. Um sabor aguça o apetite (Bengel).

Bom. No original grego: benigno, gentil; como Deus nos é revelado em Cristo, “o Senhor” (1Pe 2:4), nós que nascemos de novo devemos ser bons e bondosos para com os irmãos (1Pe 1:22). ‘Aquele que não provou a palavra, para ele não é doce; mas para aqueles que a experimentaram, que com o coração creem: “Cristo foi enviado para mim e tornou-se meu; as minhas misérias são suas, e a sua vida minha”, tem um sabor doce’ (Lutero). [JFU]

4 Aproximai-vos dele, que é uma pedra viva, rejeitada pelos seres humanos, mas escolhida e preciosa para Deus.

Aproximai-vos dele, que é uma pedra viva. Todo o imaginário muda, como uma visão que se dissolve, e no lugar do crescimento das crianças alimentadas com leite espiritual, temos a de um edifício em que cada discípulo de Cristo é como uma “pedra viva” que espontaneamente toma o seu lugar correto no edifício que assenta sobre Cristo como a pedra mais importante. A nova imagem na mente de Pedro está relacionada com o seu uso em Salmo 118:22 e Isaías 28:16, mas também é significativo notar que temos a mesma sequência das duas metáforas em 1 Coríntios 3:1-2,10-11. Percebe-se também que o grego é mais ousado em seu uso da imagem do que o português, e não tem nenhuma partícula de comparação (que é uma). O termo viva é utilizado no seu sentido mais pleno, apresentando o paradoxo de ligar o substantivo com o adjetivo que parece mais distante dele. O menor sentido da palavra em que os escritores latinos aplicaram o termo saxum vivum às rochas na sua forma natural, diferente daqueles que tinham sido cortadas e esculpidas, é aqui dificilmente admissível.

rejeitada pelos seres humanos. O verbo é o mesmo que o “rejeitaram” de Mateus 21:42. Não podemos esquecer que as ideias em que Pedro agora entra tiveram o seu ponto de partida na citação do Salmo feita por Nosso Senhor naquela ocasião. Na substituição do termo amplo “homens” pelo termo “construtores” do Salmo, podemos traçar o sentido de que não foram apenas os governantes dos judeus, nem mesmo os judeus apenas como uma nação, mas a humanidade em geral, por quem a “cabeça da esquina” tinha sido rejeitada. Aqui novamente vemos na Epístola a reprodução do ensinamento anterior do Apóstolo (Atos 4:11).

mas escolhida e preciosa para Deus. As duas palavras enfatizam o contraste entre a rejeição do homem e a aceitação de Deus. Ambas são tiradas da Septuaginta de Isaías 28:16. [Cambridge, 1890]

5 Também vós, como pedras vivas, sois edificados como casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo.

Também vós, como pedras vivas. Participando do nome e da vida que está na “PEDRA VIVA” (1Pe 2:4; 1Co 3:11). Muitos nomes que pertencem a Cristo são atribuídos a cristãos num sentido inferior. Ele é “O Filho”, “Sumo Sacerdote”, “Rei”, “Cordeiro”: eles, “filhos”, “sacerdotes”, “reis”, “cordeiros”.

sois edificados. No original grego, “estão sendo edificados”, como em Efésios 2:22. Não como Alford, “Sede edificados”. Pedro fundamenta suas exortações (1Pe 2:2,11, etc) na consciência deles de seus elevados privilégios como pedras vivas no processo de construção de uma casa espiritual (isto é, “a habitação do Espírito”).

sacerdócio. Os cristãos são tanto o templo espiritual como os sacerdotes do templo. Há duas palavras gregas para “templo”; hieron (o lugar sagrado), todo o edifício, incluindo os pátios onde o sacrifício era morto; e naos (a morada, isto é, de Deus), o santuário interior onde Deus se manifestava, e onde, no lugar mais santo, o sangue do sacrifício morto era apresentado diante Dele. Todos os crentes, e não apenas os ministros, são agora a morada de Deus (e são chamados os naos, grego, não o hieron) e sacerdotes de Deus (Ap 1:6). O ministro não é, como o sacerdote judeu (grego, hiereus), aceito mais perto de Deus do que o povo, mas somente pela ordem, conduz os serviços espirituais do povo. Cristo é o único sacerdote literalmente hiereus no Novo Testamento através do qual podemos sempre nos aproximar de Deus. Compare 1Pe 2:9, “um sacerdócio real”, isto é, um corpo de reis sacerdotes, como foi Melquisedeque. O Espírito nunca, no Novo Testamento, dá o nome hiereus, aos ministros do Evangelho.

santo. Consagrado a Deus.

sacrifícios espirituais. Não o literal da missa, como ensinam os autodenominados discípulos romanos de Pedro. Compare Is 56:7, que se compara com “aceitável a Deus” aqui; Sl 4:5; 50:1451:17,19; Os 14:2; Fp 4:18. “Entre os sacrifícios espirituais, o primeiro lugar pertence à oferta geral de nós mesmos. Pois nunca poderemos oferecer nada a Deus até que nos tenhamos oferecido (2Co 8:5) em sacrifício a Ele. Seguem-se depois as orações, as ações de graças, as esmolas e todos os exercícios de piedade” (Calvino). As casas cristãs de adoração nunca são chamadas de templos porque o templo era um lugar de sacrifício, que não tem lugar na dispensação cristã; o templo cristão é a congregação dos adoradores espirituais. A sinagoga (onde a leitura da Escritura e a oração constituíam a adoração) foi o modelo da casa de adoração cristã (Veja em Tg 2:2, grego, “sinagoga”; At 15:21). Nossos sacrifícios são os de oração, louvor e serviços abnegados na causa de Cristo (1Pe 2:9, final).

por Jesus Cristo – como nosso Sumo Sacerdote mediador perante Deus. Conecte estas palavras com oferecerdes. Cristo é ao mesmo tempo precioso e nos faz aceitos (Bengel). Assim como o templo, também o sacerdócio, é edificado sobre Cristo (1Pe 2:4-5) (Beza). Por mais imperfeitos que sejam nossos serviços, não estamos com acanhamento incrédulo, que está muito perto de uma justiça própria refinada, para duvidar de sua aceitação ATRAVÉS DE CRISTO. Depois de exaltar a dignidade dos cristãos, ele volta a CRISTO como a única fonte dela. [JFU, 1871]

6 Pois também está contido na Escritura: Eis que eu ponho em Sião uma pedra principal de esquina, escolhida e preciosa. Quem nela crer de maneira nenhuma será envergonhado.

Eis. Chamando atenção para o glorioso anúncio do Seu eterno conselho.

escolhida — assim também os crentes (1Pe 2:9, “geração escolhida”, no grego, “geração eleita“).

preciosa. Em hebraico, Is 28:16, “pedra preciosa de esquina”. Assim, em 1Pe 2:7, diz-se que Cristo é “precioso” para os crentes.

envergonhado. Compare com Rm 9:33 (Pedro aqui como em outros lugares confirmando o ensinamento de Paulo. Veja também Rm 10:11). Em Is 28:16, “fugir às pressas”, isto é, fugir em pânico repentino, envergonhado por esperanças confusas. [JFU, 1871]

7 Assim, para vós, que credes, ela é preciosa. Mas para os incrédulos: A pedra que os construtores rejeitaram, essa se tornou a principal de esquina,

A aplicação da Escritura é citada primeiro ao crente, depois ao incrédulo. Sobre os efeitos opostos do mesmo Evangelho em classes diferentes, compare Jo 9:39; 2Co 2:15-16.

preciosa. A vocês, crentes, pertence a preciosidade de Cristo que acabamos de mencionar.

A pedra que os construtores rejeitaram, essa se tornou a principal de esquina  (Sl 118:22). Aqueles que rejeitaram a PEDRA estavam o tempo todo, apesar de inconscientemente, contribuindo para que ela se tornasse a Principal de esquina. O mesmo ímã tem dois pólos, um de repulsão, o outro de atração; assim, o Evangelho tem efeitos opostos nos crentes e descrentes, respectivamente. [JFU, 1871]

8 assim como pedra de tropeço, e pedra que causa queda. Eles tropeçam na palavra por serem rebeldes; para o que também foram destinados.

pedra de tropeço…citada de Isaías 8:14. Não apenas eles tropeçaram, no sentido de que seus preconceitos foram ofendidos; mas seu tropeço implica a punição judicial de sua recepção do Messias; eles se feriram em tropeçar sobre a pedra angular, como “tropeço” significa em Jr 13:16; Dn 11:19

Para isso. Para o tropeço penal; para a punição judicial da sua incredulidade. Veja acima.

também. Um pensamento adicional; o arranjo de Deus; não que Deus os ordene ou nomeie para o pecado, mas que eles são entregues ao “fruto de seus próprios caminhos” de acordo com o conselho eterno de Deus. A ordem moral do mundo é totalmente de Deus. Deus nomeia os ímpios para serem entregues ao pecado, e a uma mente reprovável, e a sua penalidade necessária. foram destinados, no grego, “postos”, responde para “eu ponho”, no grego, “postos”, de 1Pe 2:6. Diz-se que Deus, no ativo, destina Cristo e os eleitos (diretamente). Diz-se que os incrédulos, no passivo, são destinados (Deus agindo menos diretamente na indicação do caminho terrível do pecador) (Bengel). Deus ordena os ímpios para punição, não para crime (J. Cappel). “destinados” ou “postos” (não “pré-ordenados”) se refere, não ao conselho eterno de forma tão direta, como à justiça penal de Deus. Pelo mesmo Cristo, a quem os pecadores rejeitaram, serão rejeitados; ao contrário dos crentes, estão destinados à ira, como por ela foram PREPARADOS (Rm 9:22). Os perdidos colocarão toda a culpa de sua ruína sobre sua própria perversidade pecaminosa, não sobre o decreto de Deus; os salvos atribuirão todo o mérito de sua salvação ao amor e graça eleitos por Deus. [JFU, 1871]

9 Mas vós sois a geração escolhida, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido; a fim de que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.

Contraste nos privilégios e destino dos crentes. Compare o contraste semelhante com o contexto anterior.

escolhida. “eleita” de Deus, como Cristo é o seu Senhor.

geração. Implicando a unidade de origem espiritual e parentesco dos crentes, como uma classe distinta do mundo.

real. Crentes, como Cristo, o antitípico Melquisedeque, são ao mesmo tempo reis e sacerdotes. Israel, num sentido espiritual, foi projetada para ser a mesma entre as nações da terra. A plena realização disto na terra, tanto para o Israel literal como para o Israel espiritual, é ainda futura.

nação santa. Antitípica para Israel.

o povo adquirido. Isto é, um povo a quem Deus escolheu para ser peculiarmente Seu: Atos 20:28. O “tesouro peculiar” de Deus sobre os demais.

anuncieis.  Não os seus próprios louvores, mas os Dele. Eles não têm nenhuma razão para se engrandecerem acima dos outros, pois já estiveram na mesma escuridão, e apenas através da graça de Deus foram trazidos à luz, a qual eles devem agora mostrar aos outros.

virtudes. Grego,”excelências”: Sua glória, misericórdia (1Pe 2:10), bondade (grego, 1Pe 2:3; Nm 14:17-18; Is 63:7). O mesmo termo é aplicado aos crentes, 2Pe 1:5.

aquele que vos chamou  (2Pe 1:3).

das trevas – dos pagãos e até de ignorância judaica, pecado e miséria, e assim fora do domínio do príncipe das trevas.

maravilhosa. Pedro ainda tem em mente o Salmo 118:23.

sualuz. De Deus. Somente a luz (espiritual) é criada por Deus, não a escuridão. Em Isaías 45:7, é a escuridão física e o mal, não a moral, que se diz que Deus cria, o castigo do pecado, não o pecado em si mesmo. Pedro, com ousadia característica, marca como escuridão o que todo o mundo chama de luz; a razão, sem o Espírito Santo, apesar de seu louvável poder, é escuridão espiritual. “Não pode apreender o que é a fé: ali é cega, apalpa como uma pessoa sem visão, tropeça de uma coisa para outra, e não sabe o que faz” (Lutero). [JFU, 1871]

10 Antes, vós não éreis povo, mas agora sois povo de Deus. Antes , não havíeis recebido misericórdia, mas agora recebestes misericórdia.

Adaptado de Oséias 1:9-102:23. Pedro claramente confirma Paulo, que cita a passagem como implicando o chamado dos gentios para tornarem espiritualmente o que Israel havia sido literalmente, o povo de Deus. Primeiramente, a profecia se refere a Israel literalmente, a partir de agora sendo totalmente aquilo que em seus melhores dias eram apenas parcialmente, o povo de Deus.

não havíeis recebido misericórdia. Implicando que foi a pura misericórdia de Deus, não seus méritos, que fizeram a mudança abençoada em seu estado; um pensamento que deve acender sua viva gratidão, ser mostrado com sua vida, assim como seus lábios. [JFU, 1871]

11 Amados, como a peregrinos e estrangeiros, eu vos peço que vos abstenhais dos desejos carnais, que batalham contra a alma,

Como até agora ele os exortou a caminhar dignamente de seu chamado, em contraste com seu antigo caminho, assim agora ele os exorta a glorificar a Deus diante dos incrédulos.

Amados. Ele chama a atenção deles para a sua exortação, assegurando-lhes o seu amor.

estrangeiros e peregrinos (1Pe 1:17). Os estrangeiros residentes que têm uma casa numa cidade sem serem cidadãos em relação aos direitos de cidadania; um retrato da posição do cristão na terra; e os peregrinos, permanecendo por um tempo em uma terra estrangeira. Flácio assim analisa a exortação: (1) Purificai vossas almas (a) como estrangeiros na terra que não se devem deixar reter pelas concupiscências terrenas, e (b) porque essas concupiscências guerreiam contra a salvação da alma. (2) Ande piedosamente entre descrentes (a) para que deixem de caluniar os cristãos, e (b) que eles se convertam a Cristo.

desejos carnais. Listados em Gl 5:19, etc.

que. Não só eles impedem, mas eles atacam (Bengel).

que batalham contra a alma. Isto é, contra a alma regenerada. A alma regenerada é assediada por desejos pecaminosos. Como Sansão no colo de Dalila, o crente, no momento em que cede às cobiças da carne, corta as mechas de sua força e deixa de manter essa separação espiritual do mundo e da carne da qual o voto nazireu era do tipo. [JFU, 1871]

12 e que tenhais um bom comportamento vosso entre os pagãos; para que, naquilo que de vós, como de malfeitores, falam mal, no dia da visitação glorifiquem a Deus por causa das vossas boas obras que virem.

bom. Honrável, apropriado (1Pe 3:16). Contraste “vã maneira” (1Pe 1:18). Uma boa caminhada não nos torna piedosos, mas primeiro precisamos ser piedosos e crer antes de tentarmos seguir um bom caminho. A fé primeiro recebe de Deus, depois o amor dá ao próximo (Lutero).

comportamento. Há duas coisas em que “estrangeiros e peregrinos” devem se portar bem: (1) a conduta, como subordinados (1Pe 2:13), servos (1Pe 2:18), esposas (1Pe 3:1), maridos (1Pe 3:7), todas as pessoas sob todas as circunstâncias (1Pe 2:8); (2) confissão da fé (1Pe 3:15-16). Cada um dos dois é derivado da vontade de Deus. Nosso comportamento deve corresponder com a condição de nosso Salvador; está no céu, assim deve ser.

para que, naquilo que de vósfalam mal – agora (1Pe 2:15), para que eles possam, no entanto, em algum outro momento no futuro glorificar a Deus. As mesmas obras “que, tendo uma consideração mais cuidadosa, devem levar os pagãos a louvar a Deus, são a princípio objeto de ódio e piada” (Steiger).

malfeitores. Porque, como cristãos, não podiam se conformar com os costumes pagãos, foram acusados de desobediência para com toda autoridade legal; a fim de refutar esta acusação, é-lhes dito que se submetam a toda ordenança do homem (não pecaminosa em si mesma).

glorifiquem – formando uma elevada consideração do Deus a quem os cristãos adoram, a partir da conduta exemplar dos próprios cristãos. Nós devemos fazer o bem, não para nossa própria glória, mas para a glória de Deus.

que virem. No grego, “eles serão testemunhas oculares de”; “contemplarão de perto”; em oposição à sua “ignorância” (1Pe 2:15) sobre o verdadeiro caráter dos cristãos e do cristianismo, julgando com base em meros boatos. O mesmo verbo grego ocorre num sentido semelhante em 1Pe 3:2. “Outros homens olham de perto (assim o grego sugere) as ações dos justos” (Bengel). Tertuliano contrasta os primeiros cristãos e os pagãos: estes se deleitavam nos espetáculos sangrentos de gladiadores do anfiteatro, enquanto um cristão era excomungado se fosse a ele. Nenhum cristão era encontrado na prisão por causa do crime, mas apenas pela fé. Os pagãos excluíam os escravos de alguns dos seus serviços religiosos, enquanto os cristãos tinham alguns dos seus presbíteros da classe dos escravos. A escravidão desaparecera silenciosa e gradualmente pelo poder da lei cristã do amor, “Tudo o que vós quereis que os homens vos fizessem, fá-lo-íeis também a eles”. Os pagãos abandonavam seus parentes mais próximos numa praga, os cristãos serviam aos doentes e moribundos. Os gentios deixavam seus mortos desenterrados depois de uma batalha e jogavam seus feridos nas ruas, os discípulos se apressavam para aliviar o sofrimento. [JFU, 1871]

13 Sujeitai-vos a toda autoridade humana, por causa do Senhor; seja ao rei, como superior;

toda autoridade humana. “toda instituição humana” (Alford), literalmente, “toda criação humana”. Pois apesar da designação divina, ainda no modo de nomeação e no exercício de sua autoridade, os governantes terrenos são apenas instituições humanas, sendo dos homens e em relação aos homens. O apóstolo fala como alguém que se elevou acima de todas as coisas humanas. Mas para que não se considerem tão enobrecidos pela fé a ponto de serem elevados acima da subordinação às autoridades humanas, ele lhes diz que se submetam por amor a Cristo e que já esteve sujeito aos próprios governantes terrenos, embora tendo todas as coisas sujeitas a Ele, e cuja honra está em jogo em Seus representantes terrestres. Compare com Rm 13:5: “Seja sujeito por consciência”.

rei. O imperador romano era “supremo” nas províncias romanas às quais esta Epístola foi endereçada. Os zelotas judeus recusaram a obediência. A distinção entre “o rei como supremo” e “governadores enviados por ele” implica que “se o rei ordena uma coisa, e o magistrado subordinado outra, devemos preferencialmente obedecer ao superior” (Agostinho em Grotius). A Escritura não prescreve nada sobre a forma de governo, mas simplesmente submete os cristãos ao que por toda parte subsiste, sem entrar na questão do direito dos governantes (assim os imperadores romanos tinham pela força tomado a autoridade suprema, e Roma tinha, por meios injustificáveis, feito a si mesma senhora da Ásia), porque os governantes de fato não foram criados por acaso, mas pela providência de Deus. [JFU, 1871]

14 seja aos governantes, como enviados por ele, com o objetivo de castigar os malfeitores, e de conceder honra aos que fazem o bem.

governantes. Subordinados ao imperador, “enviados”, ou delegados por César para presidir as províncias.

castigar. Embora os maus reis muitas vezes oprimam o bem, mas isso raramente é feito pela autoridade pública (e é do que é feito pela autoridade pública que Pedro fala), exceto sob a máscara do direito. A tirania persegue muitos, mas a anarquia domina todo o estado (Horneius). A única exceção justificável é nos casos em que a obediência ao rei terrestre envolve claramente desobediência à ordem expressa do Rei dos reis.

conceder honra aos que fazem o bem. Todo governo reconhece a excelência dos assuntos verdadeiramente cristãos. Assim, Plínio, em sua carta ao Imperador Trajano, reconhece: “Eu não encontrei neles nada além de uma superstição perversa e extravagante”. O reconhecimento a longo prazo atenua a perseguição (1Pe 3:13). [JFU, 1871]

15 Pois esta é a vontade de Deus, que, ao fazerdes o bem, caleis a ignorância dos homens tolos.

O motivo pelo qual ele os orienta a se submeterem (1Pe 2:13).

ignorância – espiritual não possuindo “o conhecimento de Deus”, e portanto ignorante dos filhos de Deus, e interpretando mal os seus atos; influenciados por meras aparências, e sempre dispostos a abrir a boca, mais do que os olhos e ouvidos. A ignorância deles deve mover a piedade do crente, não a sua ira. Eles julgam coisas que são incapazes de julgar pela incredulidade (compare 1Pe 2:12). Mantenham uma atitude tal que eles não tenham nenhuma acusação contra vós, exceto com relação à vossa fé; e assim as mentes deles serão favoráveis ao cristianismo. [JFU, 1871]

16 Comportai-vos como pessoas livres, mas não useis a liberdade como pretexto para a malícia. Em vez disso, sede como servos de Deus.

como pessoas livres. Como “os homens livres do Senhor”, conectado com 1Pedro 2:15, fazendo bem como sendo livres. “Fazer bem” (1Pe 2:15) é o fruto natural de ser livre de Cristo, libertado pela “verdade” da escravidão do pecado. Nos é imposto o dever de guardar-nos contra a concupiscência, mas o modo como deve ser cumprido é pelo amor e pelos santos impulsos da liberdade cristã. São nos dados princípios, não detalhes.

não useis a liberdade como pretexto para a malícia. Em vez disso, sede como servos de Deus. No grego “não como tendo a vossa liberdade como um véu (capa) de maldade, mas como os servos de Deus”, e portanto comprometido a submeter-se a toda ordenança do homem (1Pe 2:13) que é da nomeação de Deus. [JFU, 1871]

17 Honrai a todos: amai aos irmãos, temei a Deus, honrai ao rei.

Honrai a todos – de acordo com a honra que for devida a cada um. Cristo dignificou nossa humanidade assumindo-a; portanto, não devemos desonrar, mas ter consideração e honrar nossa humanidade comum, mesmo nos mais humildes. A primeira “honra” está no imperativo aoristo grego, implicando: “Em todos os casos, dar prontamente a cada homem o que lhe é devido” (Alford). A segunda é no tempo presente, implicando, Habitualmente e continuamente honrar o rei [autoridades]. Assim o primeiro é o preceito geral; os três seguintes são suas três grandes divisões.

temei a Deus, honrai ao rei. O rei deve ser honrado; mas só Deus, no sentido mais elevado, temido. [JFU, 1871]

18 Servos, sujeitai-vos com todo temor aos vossos senhores, não somente aos bons e brandos, mas também aos que maltratam.

Servos. No grego, “empregados domésticos”: diferente do grego para “escravos”. Provavelmente incluindo libertos que ainda permanecem na casa de seu senhor. Senhores não eram comumente cristãos: ele, portanto, menciona apenas os deveres dos servos. Estes eram então muitas vezes perseguidos por seus senhores incrédulos. O objetivo especial de Pedro parece ser ensinar-lhes a submissão, seja qual for o caráter dos senhores. Paulo não tendo isso como seu principal objetivo, inclui senhores em suas advertências.

sujeitai-vos. Grego, “sendo sujeitos”: o particípio expressa um exemplo particular da exortação geral à boa conduta (1Pe 2:11-12), dos quais o primeiro mandamento específico é dado 1Pedro 2:13, “sujeitai-vos a toda autoridade humana, por causa do Senhor”. A exortação geral é retomada em 1Pedro 2:16; e assim, o particípio 1Pedro 2:18, “sujeitai-vos”, é unido aos imperativos da exortação anteriores, isto é, “abstenhais”, “sujeitai-vos”, “honrai a todos”.

com. Grego, “em”.

todo. Todo possível: sob todas as circunstâncias, tais como são agora detalhadas.

temor. O temor de um sujeito: Deus, porém, é o objeto último do “temor”: temor “por causa do Senhor” (1Pe 2:13), não apenas medo servil dos senhores. [JFU, 1871]

19 Pois coisa agradável é se alguém, por causa da consciência a respeito de Deus, experimente dores, sofrendo injustamente.

Motivo para sujeição até mesmo aos senhores perversos.

agradável (Lc 6:33). Um caminho fora do comum, e especialmente louvável aos olhos de Deus: não como Roma interpreta, adquirindo mérito, e assim uma obra de supererogação (compare 1Pe 2:20).

por causa da consciência a respeito de Deus. Por causa de uma preocupação consciente para com Deus, mais do que para com os homens.

sofrendo injustamente. No grego, “pacientemente suportando”: como um fardo a mais (Alford). [JFU, 1871]

20 Afinal, que mérito há em suportar serdes espancados por cometerdes pecado? Contudo, se, quando fazeis o bem, sois afligidos e suportais, isso é aceitável a Deus.

espancados. A punição de escravos (Bengel).

aceitável. No grego, “agradável”, como em 1Pedro 2:19. [JFU, 1871]

21 Pois para isto fostes chamados, porque também Cristo sofreu por vós, deixando-vos exemplo, para que sigais os seus passos.

O exemplo de Cristo é uma prova de que a paciência sob sofrimentos imerecidos é aceitável para Deus.

para isto. Para a perseverança paciente aos sofrimentos imerecido (1Pe 3:9). Cristo é um exemplo para os servos, que já esteve “na forma de servo”.

chamados. Com um chamado celestial, embora escravos.

por vós. Sua morte por nós é o maior exemplo do “fazer o bem” (1Pe 2:20). Deveis sofrer pacientemente, sendo inocentes, como Cristo também sofreu inocentemente (não por Ele mesmo, mas por nós). Os sofrimentos de Cristo, embora sejam um exemplo, foram também principalmente sofrimentos “por nós”, uma consideração que nos impõe uma obrigação eterna de agradar a Ele.

deixando-vos – em sua partida para o Pai, para a Sua glória.

exemplo. Grego, “uma cópia”, literalmente, “uma cópia da escrita” feita por mestres para seus alunos. Os ensinamentos e sermões de Cristo eram a transcrição de Sua vida. Pedro graficamente apresenta aos servos aquelas características especialmente adequadas ao caso deles.

seus passos. Ou seja, de sua paciência combinada com inocência. [JFU, 1871]

22 Ele não cometeu pecado, nem engano foi achado em sua boca.

Ilustrando o bem de Cristo (1Pe 2:20) apesar do sofrimento.

cometeu. Aoristo grego. “Em nenhuma única ocasião” (Alford). Citado de Isaías 53:9, parte fina (Septuaginta).

nem. nem ainda: nem sequer  (Alford). Não percar com a boca é uma marca de perfeição. O engano é uma falha comum dos servos. “Se alguém se vangloria de sua inocência, Cristo certamente não sofreu como um malfeitor” (Calvino), contudo Ele aceitou o sofrimento pacientemente (1Pe 2:20). Sobre impecabilidade de Cristo, compare 2Co 5:21; Hb 7:26. [JFU, 1871]

23 Quando o insultavam, ele não insultava de volta. Quando sofria, ele não ameaçava; em vez disso, entregava-se ao que julga de maneira justa.

Servos são propensos a rebaterem insultos (Tt 2:9). Ameaças de julgamento divino contra opressores são muitas vezes usadas por aqueles que não têm outras armas, como por exemplo, escravos. Cristo, que como Senhor poderia ter ameaçado com a verdade, nunca o fez.

entregava-se – ou a Sua causa, como homem no Seu sofrimento. Compare o tipo, Jr 11:20. Aqui Pedro parece ter diante de sua mente Isaías 53:8. Compare Rm 12:19, em nosso dever correspondente. Deixa o teu caso nas Suas mãos: não para fazer Dele um executor da tua vingança, mas orando pelos inimigos. O justo juízo de Deus dá tranquilidade aos oprimidos. [JFU]

24 Ele levou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro; para que nós, estando mortos para os pecados, vivamos para a justiça. Pela ferida dele fostes sarados.

nossos pecados. Ao oferecer em sacrifício o Seu corpo, Cristo ofereceu nele a culpa de nossos pecados na cruz, como no altar de Deus, para que pudesse ser expiado nEle, e assim tirado de nós. Compare Is 53:10, “quando sua alma for posta como expiação do pecado”. Pedro quer dizer por levou o que o siríaco expressa com duas palavras: suportar e oferecer: (1) Ele levou sobre Si os nossos pecados (isto é, a sua culpa, maldição e castigo); (2) Ele os levou de tal maneira que os ofereceu juntamente consigo mesmo sobre o altar. Ele se refere aos animais sobre os quais os pecados foram primeiro colocados, e que depois eram oferecidos com essa carga (Vitringa). Pecado ou culpa entre as nações semitas é considerado como um fardo que pesadamente recai sobre o pecador (Genésio).

em seu próprio. Não havendo outro além de si mesmo que poderia ter feito isso. Seu compromisso voluntário na obra de redenção está implícito. O grego coloca em justaposição antitética, NOSSOS, e SEU PRÓPRIO, para marcar a ideia de Sua substituição por nós. Seu “fazer o bem”em Seus sofrimentos é apresentado aqui como um exemplo para os servos e para todos nós (1Pe 2:20).

corpo. Para sacrifício: levado e oferecido: um termo sacrificial. Is 53:11-12, “Ele levou o pecado de muitos”: onde a ideia de carregar sobre Si mesmo é a mais proeminente; aqui a oferta em sacrifício é combinada com essa ideia. Assim o mesmo grego significa em 1Pe 2:5.

o madeiro. A cruz, o lugar apropriado para Aquele sobre quem a maldição foi colocada: esta maldição ficou presa a Ele até ser legalmente (através da Sua morte como o portador da culpa) destruída no Seu corpo: assim a “escrita da dívida” contra nós é cancelada pela Sua morte.

estando mortos para os pecados. O efeito de Sua morte para o “pecado” no conjunto, e para todos os “pecados” particulares, ou seja, que nós devemos ser tão completamente libertos deles, como um escravo que está morto é liberto do serviço ao seu senhor. Esta é a nossa posição espiritual através da fé em virtude da morte de Cristo: a nossa mortificação real de pecados particulares é proporcional ao grau em que somos efetivamente conformados com a Sua morte. “Que morramos para os pecados cuja culpa Cristo levou em Sua morte, e assim VIVAMOS PARA A JUSTIÇA (compare Is 53:11. “Meu servo justo justificará muitos”), a relação graciosa com Deus que Ele trouxe (Steiger).

fostes sarados. Paradoxal, mas verdadeiro. “Vós, servos, muitas vezes sofreis contendas; mas não é mais do que o próprio Senhor levou; aprendei dele a paciência em sofrimentos injustos”. [JFU, 1871]

25 Porque vós éreis como ovelhas desviadas do caminho; mas agora vós estais convertidos ao Pastor e Supervisor de vossas almas.

(Is 53:6)

Porque. Atribuindo sua necessidade natural de cura (1Pe 2:24).

agora. Agora que a expiação por todos foi feita, o fundamento é lançado para a conversão individual: assim “retornastes“, ou “convertestes“, &c.

Pastor e Supervisor. A designação dos pastores e anciãos da Igreja pertence, no seu sentido mais pleno, à grande Cabeça da Igreja, “o Bom Pastor”. Como o “bispo” supervisiona (como o termo grego significa), assim “os olhos do Senhor estão sobre os justos” (1Pe 3:12). Ele nos dá o Seu espírito, nos alimenta e nos guia pela Sua palavra. [JFU, 1871]

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Introdução à 1 Pedro 2

Em 1 Pedro 2 são feitas exortações a uma inocente alimentação da palavra pela percepção de seus privilégios, como recém-nascidos, pedras vivas no templo espiritual construído sobre Cristo – a pedra angular principal, e sacerdotes reais, em contraste com seu estado anterior: também à abstinência das cobiças carnais, e a viverem dignamente em todas as questões da vida, para que o mundo, sem ter o que falar contra, seja obrigado a glorificar Deus ao ver suas boas obras. Cristo é o grande modelo a seguir na paciência em sofrer por fazer o bem.

Leia também uma introdução à Primeira Epístola de Pedro.

Adaptado de: Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible. Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles – fevereiro de 2018.