Bíblia

Gálatas 6

1 Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vós que sois espirituais, restaurai ao tal com espírito de mansidão, prestando atenção a ti mesmo, para que não sejas tentado também.

Irmãos. A força desta palavra de apelo (assim como a conexão geral) é enfraquecida pela divisão da Epístola em capítulos. O capítulo anterior termina com um aviso contra provocação e inveja — pecados totalmente inconsistentes com a fraternidade cristã. Somos lembrados do protesto de Moisés: “Homens, vós sois irmãos, por que fazeis mal um ao outro?” (Atos 7:26). A linha de pensamento parece ser: “Eu condenei o espírito e a conduta não-cristã que vocês demonstram nos casos em que é possível que estejam enganados quanto à gravidade ou à realidade da falha que vocês atacam. Vou mais longe. Suponhamos que um homem seja descoberto em uma clara violação da lei de Deus, um pecado “evidente” (Gl 5:19): nem assim estão justificados em tentar oprimir o transgressor. Ele é vosso irmão. Vocês compartilham sua natureza caída; vocês estão expostos às mesmas tentações que ele. Que este pensamento conduza a prática de um espírito de mansidão, e procure restaurar tal pessoa, reparar a sua culpa, recuperá-la para a posição que tinha perdido”. [Cambridge, 1896]

2 Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.

assim cumprireis (por completo) a lei de Cristo – ou seja, “amar” é o que cumpre toda a lei (Gl 5:14). Já que vocês desejam “a lei”, então cumpram a lei de Cristo, não composta de várias observâncias: seu único fardo é o “amor” (Jo 13:34; 15:12); Romanos 15:3 dá Cristo como exemplo. [JFU, 1871]

3 Pois, se alguém pensa ser alguma coisa, sendo nada, engana a si mesmo.

Vaidade pessoal, o principal obstáculo à paciência e à simpatia para com nossos semelhantes, deve ser posta de lado.

se alguém pensa ser alguma coisa – possuindo alguma preeminência espiritual e estando isento da fragilidade de outros homens.

engana a si mesmo – literalmente, “ele engana mentalmente a si mesmo”. Testar suas próprias ações, e julgar segundo elas, não por sua imaginação mental, é o remédio (compare com Tg 1:26). [JFU, 1871]

4 Cada um, porém, examine a sua própria obra, e então terá orgulho em si mesmo sozinho, e não em outro;

examine a sua própria obra – ou então, “teste a sua própria conduta”. O auto-exame conduzirá a uma verdadeira avaliação de si mesmo, averiguada por comparação, não com as realizações dos outros, mas com os requisitos da lei de Cristo. O resultado pode ser humilhação e vergonha; mas o motivo da vanglória não será o do fariseu: “Deus, eu te dou graças por não ser como os outros homens”, mas o daquele outro fariseu: “Pela graça de Deus eu sou o que sou” (1Co 15:10). [Cambridge, 1896]

5 pois cada um levará o seu próprio fardo.

Este é a razão pela qual um homem não tem motivo para reivindicar superioridade em relação ao seu próximo (Gl 6:4b). POIS cada um tem o seu próprio fardo – a saber, de fraqueza. Este versículo não contradiz Gálatas 6:2. Lá, ele lhes diz que suportem os “fardos” dos outros em tolerante compaixão; aqui, este auto-exame fará com que o homem sinta que tem o suficiente para prestar contas de “seu próprio fardo” de pecado, sem se comparar orgulhosamente com o próximo (compare com Gl 6:3). Em vez de “pensar ser alguma coisa”, ele sentirá o seu próprio “fardo” de pecado: isto o levará a suportar com simpatia o peso da fraqueza do próximo. AEsop diz que um homem carrega dois sacos sobre o ombro; o que tem os seus próprios pecados atrás, o que tem os pecados do seu próximo na frente. [JFU, 1871]

6 Mas aquele que é instruído na palavra compartilhe todas as boas coisas com aquele que o instrui.

A partir da menção de carregar os fardos uns dos outros, ele passa a uma maneira pela qual esses fardos podem ser suportados – servindo por meio dos bens terrenos a seus mestres espirituais. O “mas” no grego, que inicia este versículo, expressa isto, Eu disse, “cada um levará o seu próprio fardo”; MAS não é minha intenção que não pensem nos outros, especialmente nas necessidades de seus ministros”.

todas as boas coisas – todo tipo de coisas boas desta vida, conforme a necessidade (Rm 15:27; 1Co 9:11, 1Co 9:14). [JFU, 1871]

7 Não vos enganeis: Deus não se deixa escarnecer; pois, o que o ser humano semear, isso também colherá.

Deus não se deixa escarnecer. Deus não se deixa levar por palavras vazias: Ele julgará de acordo com as obras, que são sementes semeadas para uma eternidade de alegria ou tristeza. As desculpas para falta de generosidade na causa de Deus (Gl 6:6) parecem válidas diante dos homens, mas não o são diante de Deus (Sl 50:21).

semear – especialmente de seus recursos (2Co 9:6).

colherá. Na colheita, o fim do mundo (Mt 13:39). [JFU, 1871]

8 Pois quem semear para a sua carne, da carne colherá degradação; mas quem semear para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna.

Pois quem semear para a sua carne, a fim de satisfazer seus desejos. Ele não diz, “seu espírito”, como ele faz, “sua carne”. Pois em nós mesmos não somos espirituais, mas carnais. A carne é essencialmente egoísta.

degradação – isto é, destruição (Fp 3:19). Compare com Romanos 8:21. O uso do termo “degradação” implica que a destruição não é uma punição arbitrária da mentalidade carnal, mas é seu fruto natural: a carne corrupta produzindo degradação, outra palavra para destruição: degradação é a culpa, e degradação o castigo (ver em Rm 6:21-22; 1Co 3:17; 2Pe 2:12). A vida futura apenas expande a semente semeada aqui. Os homens não podem zombar de Deus porque podem enganar a si mesmos. Aqueles que semeiam o joio não podem colher trigo. Só colhem vida eterna os que semeiam para o Espírito (Sl 126:6; Pv 11:18; Pv 22:8; Os 8:7; Os 10:12; Lc 16:25; Rm 8:11; Tg 5:7). [JFU, 1871]

9 Porém não cansemos de fazer o bem, pois no tempo devido colheremos, se não desistirmos.

no tempo devido – no tempo de Deus (1Tm 6:15).

10 Portanto, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos; mas principalmente aos familiares da fé.

aos familiares da fé. Todo homem correto faz bem à sua própria família (1Tm 5:8); assim os crentes devem fazer à família da fé – isto é, aqueles que a fez membros da “família de Deus” (Ef 2:19; 1Tm 3:15; 1Pe 4:17). [JFU, 1871]

11 Olhai como são grandes as letras que vos escrevi da minha mão.

Segundo Jerônimo, Paulo escreveu em letras grandes por causa da sua fraca visão (Gl 4:15). Todos os manuscritos mais antigos são escritos em uncial – ou seja, letras maiúsculas; os de letras cursivas, ou minúsculas, são de datas mais recentes. Paulo parece ter tido dificuldade em escrever, o que o levou a fazer as letras unciais maiores do que os escritores comuns. A menção destas é como um símbolo pelo qual eles saberiam que ele escreveu a Epístola inteira com suas próprias mãos; como ele também fez a epístola pastoral, que a esta epístola se assemelha em estilo. Paulo geralmente ditava suas epístolas a um amanuense, exceto a saudação de conclusão, que ele próprio escrevia (Rm 16:22; 1Co 16:21). Esta carta ele escreveu com sua própria mão, a fim de que os gálatas pudessem ver a consideração que ele teve por eles, em contraste com os mestres judaizantes (Gl 6:12), que buscavam apenas seu próprio benefício. [JFU, 1871]

12 Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, estes vos obrigam a vos circuncidarem, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo.

Contraste entre seu zelo em favor deles, implícito em Gálatas 6:11, e o zelo por si mesmos dos judaizantes.

que querem mostrar boa aparência (2Co 5:12) na carne – nas coisas externas.

somente para não serem perseguidos. Eles escaparam da amargura dos judeus contra o cristianismo, e da ofensa da cruz de Cristo, fazendo da lei mosaica uma preliminar necessária; de fato, tornando os cristãos convertidos em prosélitos judeus.

por causa da cruz de Cristo. Por pregar a doutrina da cruz. [JFU, 1871]

13 Pois nem mesmo os que se circuncidam guardam a Lei; mas querem que vos circuncideis, para se orgulharem de vossa carne.

Eles arbitrariamente escolheram a circuncisão dentre toda a lei, como se a observância dela compensasse a sua não-observância do resto.

para se orgulharem de vossa carne – isto é, na mudança externa (oposta à interior, feita pelo ESPÍRITO) que eles efetuam em vos trazer para o partido judeu-cristão deles. [JFU, 1871]

14 Mas longe de mim esteja me orgulhar, a não ser na cruz do nosso Senhor Jesus Cristo; por meio dela, o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo.

Paulo contrasta seu próprio espírito com o que seus oponentes manifestam. Eles são motivados por desejos egoístas de se gloriarem sobre a carne dos outros; ele se gloriará apenas no triunfo da cruz sobre sua própria carne, por meio do qual o poder do mundo sobre ele e seu amor carnal pelo mundo são eliminados. [Expositor, 1897]

15 Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão; mas sim a nova criatura.

Eu faço a cruz tudo; porque a circuncisão não é nada, assim como a incircuncisão. A incircuncisão não é condição de salvação, mas uma nova criatura, ou melhor, criação; uma renovação por meio de Cristo. [Whedon, 1874]

16 E todos os que andarem conforme esta regra, paz e misericórdia estejam sobre eles, e sobre o Israel de Deus.

E todos. Em contraste com “Todos” em Gálatas 6:12.

paz – de Deus (Ef 2:14-17; Ef 6:23).

misericórdia (Rm 15:9).

Israel de Deus – não o Israel segunda a carne (1Co 10:18), entre os quais esses mestres desejam incorporar vocês; mas a semente espiritual de Abraão pela fé (Gl 3:9; Gl 3:29; Rm 2:28; Rm 2:29; Fp 3:3). [JFU, 1871]

17 De agora em diante, ninguém me perturbe, porque trago no meu corpo as marcas de Jesus.

ninguém me perturbe – opondo-se, por legalismo ou licenciosidade, à minha autoridade apostólica, pois está seguramente selada pelas marcas de Jesus que trago no meu corpo, em contraste com os mestres judaizantes que se glorificam na carne.

as marcas – feitas nos escravos para indicar seus donos. Assim as cicatrizes de Paulo, recebidas por Cristo, indicam a quem ele pertence (2Co 11:23-25). Os mestres judaizantes se gloriavam na marca da circuncisão na carne de seus seguidores; Paulo se gloria nas marcas do sofrimento por Cristo em seu próprio corpo (compare Gl 6:14; Fp 3:10; Cl 1:24). [JFU, 1871]

18 A graça do nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito, irmãos. Amém!

irmãos.- No grego esta palavra é a última do versículo e da epístola. “Assim”, diz Bengel, Paulo “ele suaviza com esta palavra final a severidade de toda a epístola”. Ele se despede deles como irmãos; se eles realmente permaneceram irmãos, a história não revela.[Whedon, 1874]

<Gálatas 5 Efésios 1>

Leia também uma introdução à Epístola aos Gálatas.

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