Bíblia

Gênesis 14

Guerra de quatro reis contra cinco

1 E aconteceu nos dias de Anrafel, rei de Sinar, Arioque, rei de Elasar, Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de nações,

Tidal. Esse nome, de acordo com Rawlinson, é encontrado no antigo dialeto camítico do baixo Tigre e do Eufrates, e significa “o Grande Chefe”. O título de rei de nações pode denotar que Tidal era chefe de um número de tribos nômades, sem domínio estabelecido.

rei de nações. Alguns interpretam גוים, “nações”, como um nome próprio, “Goim”. Mas não temos conhecimento de nenhuma nação ou região com esse nome. [Whedon]

2 Que estes fizeram guerra contra Bera, rei de Sodoma, e contra Birsa, rei de Gomorra, e contra Sinabe, rei de Admá, e contra Semeber, rei de Zeboim, e contra o rei de Belá, a qual é Zoar.

Aparentemente (Gn 14:4), esses cinco reis cananeus foram subjugados por Quedorlaomer e obrigados a lhe pagar tributo; e tendo sido escravizados por ele doze anos, se revoltaram no décimo terceiro; em conseqüência disso, no ano seguinte Quedorlaomer convocou para seu auxílio três de seus súditos, invadiu Canaã, lutou e derrotou os reis das cinco cidades – Sodoma, Gomorra, Zeboim, Zoar e Admá, que estavam situadas na frutífera planície de Sidim. [Clarke]

3 Todos estes se juntaram no vale de Sidim, que é o mar salgado.

Vale de Sidim. Ele estava entre En-Gedi e as cidades da planície, na extremidade sul do Mar Morto. Era “cheio de poços de betume”. Aqui Quedorlaomer e os reis confederados derrotaram os reis de Sodoma e as cidades da planície. Deus depois, por causa de sua maldade, “destruiu aquelas cidades e toda a planície, e todos os habitantes das cidades”; e a fumaça de sua destruição “subiu como a fumaça de uma fornalha” (Gn 19:24-28), e era visível de Manre, onde Abraão habitava.

Alguns, porém, argumentam que as “cidades da planície” estavam em algum lugar ao norte do Mar Morto. [Easton]

mar salgado. Mar Morto.

4 Doze anos haviam servido a Quedorlaomer, e ao décimo terceiro ano se rebelaram.

Doze anos haviam servido a Quedorlaomer. Sendo tributários a ele (compare 2Rs 18:8).

e ao décimo terceiro ano. O acusativo do tempo denotando duração. Ewald torna estas palavras, ‘durante todo o décimo terceiro ano’. [JFU]

5 E no ano décimo quarto veio Quedorlaomer, e os reis que estavam de sua parte, e derrotaram aos refains em Asterote-Carnaim, aos zuzins em Hã, e aos emins em Savé-Quiriataim.

aos refains. Ou “descendentes de Rafa” (2Sm 21:22). O nome dado aos nativos de Canaã, gigantes que são mencionados em 2Sm 21:16-22. A designação é especialmente aplicada, em Deuteronômio 3:11, a Ogue, o rei de Basã, cujo território correspondia a nação mencionada neste versículo.

Asterote-Carnaim. É geralmente identificada com Tell Ashtara, no planalto de Basã, cerca de 32km a leste do mar da Galileia. Carnaim significa “os dois chifres”; e o nome completo provavelmente significa “o Astarte de dois chifres”, que, como a Deusa da Lua, era representada com dois chifres.

6 E aos horeus no monte de Seir, até a El-Parã, que está junto ao deserto.

Horeus. Um povo que viva nas abundantes cavernas de calcário em Edom. Seu ancestral era “Seir”, que provavelmente deu seu nome a região onde morava. Eles eram uma linhagem dos heveus (Gn 14:6; 36:20-30; 1Cr 1:38-39). Eles foram expropriados pelos descendentes de Esaú, e como um povo gradualmente se extinguiu (Dt 2:12-22).

Seir. O nome de uma região montanhosa que se estende ao longo do lado oriental da Arabá, da extremidade sudeste do Mar Morto até perto do Aqaba, ou a ramificação oriental do Mar Vermelho. Foi originalmente ocupada pelos horeus, que foram depois expulsos pelos edomitas (Gn 32:3; 33:14,16).

El-Parã, que está junto ao deserto. (“campina de Parã” em algumas traduções) Ou seja, um lugar à beira do deserto fronteiriço com o território dos horeus (Gn 14:6). Este foi o ponto mais distante para o qual a expedição de Quedorlaomer se estendeu. [Easton]

7 E voltaram e vieram a En-Mispate, que é Cades, e devastaram todas as terras dos amalequitas, e também aos amorreus, que habitavam em Hazazom-Tamar.

Hazazom-Tamar. O nome original de um lugar chamado En-Gedi (2Cr 20:2). [Easton]

8 E saiu o rei de Sodoma, e o rei de Gomorra, e o rei de Admá, e o rei de Zeboim, e o rei de Belá, que é Zoar, e ordenaram contra eles batalha no vale de Sidim;

Vale de Sidim.“Que é o mar salgado” (Gn 14:3,10), estava entre En-Gedi e as cidades da planície, na extremidade sul do Mar Morto. Era “cheio de poços de betume”. Aqui Quedorlaomer e os reis confederados derrotaram os reis de Sodoma e as cidades da planície. Deus depois, por causa de sua maldade, “destruiu aquelas cidades e toda a planície, e todos os habitantes das cidades”; e a fumaça de sua destruição “subiu como a fumaça de uma fornalha” (Gn 19:24-28), e era visível de Manre, onde Abraão habitava.

Alguns, porém, argumentam que as “cidades da planície” estavam em algum lugar ao norte do Mar Morto. [Easton]

9 A saber, contra Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de nações, e Anrafel, rei de Sinear, e Arioque, rei de Elasar; quatro reis contra cinco.

quatro reis contra cinco. Depois de Gn 14:8 esperaríamos que fossem “cinco reis contra os quatro”. Note a impressionante repetição dos nomes dos reis, e a variação na ordem dos nomes ou dos reis orientais, Quedorlaomer vindo primeiro, como o senhor supremo contra quem a rebelião tinha sido feita.

A descrição da batalha em si, infelizmente, não foi preservada. [Cambridge]

10 E o vale de Sidim estava cheio de poços de betume: e fugiram o rei de Sodoma e o de Gomorra, e caíram ali; e os demais fugiram ao monte.

cheio de poços de betume. O betume é encontrado nas proximidades do Mar Morto. Josefo fala do betume que flutua sobre a superfície de suas águas. Neste caso, devemos supor que o betume saiu de grandes buracos ou poços na terra, nos quais os exércitos confederados caíram em sua fuga.

e caíram ali. Referindo-se às tropas fugitivas em geral. O rei de Sodoma aparece novamente em Gn 14:17. Está implícito que aqueles que caíram nos poços se perderam.

os demais fugiram ao monte. Ou seja, para as montanhas de Moabe, a cadeia de colinas no lado leste do Mar Morto. [Cambridge]

11 E tomaram toda a riqueza de Sodoma e de Gomorra, e todos os seus mantimentos, e se foram.

E tomaram. O assunto é abruptamente transferido para o exército vitorioso. O relato da queda das cidades é omitido.

Sodoma e de Gomorra. Talvez mencionadas como as principais cidades; as outras três são ignoradas. [Cambridge]

Abrão socorre Ló

12 Tomaram também Ló, filho do irmão de Abrão, que morava em Sodoma, e sua riqueza, e se foram.

Tomaram também Ló. Esse fato nosso escritor tem o cuidado de observar. Ló e toda a sua família e posses (comp. Gn 14:16) foram tomados, e também é dito que Ló agora morava em Sodoma. Ele primeiro “mudou seu acampamento para um lugar próximo a Sodoma” (Gs 13:12), mas provavelmente depois passou a morar na cidade. “Não parece que Ló tenha participado da revolta ou da guerra; mas como um homem proeminente, sua captura pode ter sido considerada a mais importante” (Jacobus). [Whedon]

13 E veio um dos que escaparam, e denunciou-o a Abrão o hebreu, que habitava no vale de Manre, amorreu, irmão de Escol e irmão de Aner, os quais tinham feito pacto com Abrão.

E veio um dos que escapara. Abrão poderia ter se desculpado por não ter qualquer preocupação por seu “irmão”, isto é, sobrinho, que pouco merecia que ele enfrentasse problemas ou perigos por sua causa. Mas Abrão, longe de tornar o mal pelo mal, resolveu tomar medidas imediatas para resgatar Ló. [JFB]

14 E ouviu Abrão que seu irmão estava prisioneiro, e armou seus criados, os criados de sua casa, trezentos e dezoito, e seguiu-os até Dã.

armou seus criadostrezentos e dezoito. Quantos havia nas divisões de Manre, Escol e Aner, não sabemos; mas eles e os seus homens certamente acompanharam Abrão nessa perseguição. Ver Gênesis 14:24. [Clarke]

15 E derramou-se sobre eles de noite ele e seus servos, e feriu-os, e foi os seguindo até Hobá, que está à esquerda de Damasco.

E derramou-se sobre elese ferio-os. Foi necessária uma coragem e uma disposição considerável em Abrão para levá-lo a atacar os exércitos vitoriosos desses quatro reis com um número tão pequeno de tropas. O seu afeto por parece ter sido o seu principal motivo; ele arrisca a sua vida por aquele sobrinho que recentemente havia escolhido a melhor parte da terra, e deixou para o seu tio aquilo que não o interessa. Mas é próprio de uma mente grande e generosa, não só perdoar, mas esquecer as ofensas; e em todos os momentos pagar o mal com o bem. [Clarke]

16 E recuperou todos os bens, e também a Ló seu irmão e sua riqueza, e também as mulheres e gente.

A vitória de Abrão foi completa, e resultou na recuperação de tudo o que tinha sido tomado, tanto pessoas como bens. Assim, enquanto os que sobraram do exército derrotado fugiram para casa, em pânico e sem nenhum despojo, Abrão levou de volta em triunfo tudo o que havia sido roubado. [Whedon]

17 E saiu o rei de Sodoma a recebê-lo, quando voltava da derrota de Quedorlaomer e dos reis que com ele estavam, ao vale de Savé, que é o vale do Rei.

o rei de Sodoma. Assim, parece que este rei sobreviveu à derrota, provavelmente fugindo para as colinas. Gn 14:10 não significa necessariamente que os reis ali mencionados foram mortos. Alguns expositores, no entanto, entendem isso, e supõem que o rei aqui mencionado era o sucessor daquele que caiu em batalha.

vale de Savé. De acordo com Gesenius e Furst, Savé significa planície. Este vale foi posteriormente conhecido como o vale do Rei, provavelmente a partir das ocorrências aqui registradas. Nós encontramos o nome novamente em 2Samuel 18:18, e uma antiga tradição o identifica com o vale do Cedrom. Na ausência de qualquer coisa mais definitivamente conhecida, e em vista da probabilidade de que Salém fosse o nome antigo de Jerusalém, convém-nos adotar a localização de Savé dada pela tradição. Abrão, retornando para o sul da fonte do Jordão, pode muito bem ter passado pelo vale do Cedrom; e ali seria um lugar adequado, tanto para o rei de Sodoma encontrá-lo, como para o rei de Salém trazer pão e vinho. [Whedon]

Melquisedeque abençoa a Abrão

18 Então Melquisedeque, rei de Salém, tirou pão e vinho; o qual era sacerdote do Deus altíssimo;

Melquisedeque. Essa vitória proporcionou um grande benefício àquela parte da nação; e Abrão, no seu retorno, foi tratado com grande respeito e consideração, particularmente pelo rei de Sodoma e Melquisedeque, que parece ter sido um dos poucos príncipes nativos, se não o único, que conheceu e adorou, “o Deus Altíssimo”, a quem Abrão servia. Este rei, que era um tipo de Salvador (Hb 7:1), veio para abençoar a Deus pela vitória que havia sido conquistada, e em nome de Deus para abençoar Abrão, por cujos braços ela havia sido alcançada. [JFB]

19 E abençoou-lhe, e disse: Bendito seja Abrão do Deus Altíssimo, possuidor dos céus e da terra;

E abençoou-lhe. Melquisedeque, como sacerdote, abençoou Abrão por sua atitude corajosa. Um estranho em sua terra tinha vindo em socorro do seu povo.

do Deus Altíssimo. Ou seja, pelo Deus Altíssimo. A bênção de El Elyon é invocada por Melquisedeque sobre Abrão, o servo de Jeová.

possuidor dos céus e da terra. A sentença é poética. Ela expressa as idéias de fazer, produzir, criar, como em Dt 32:6; Sl 139:13; Pv 8:22. É mais freqüentemente usada para “obter” (compare Gn 4:1), um sentido que aqui não seria aplicável. Em Isaías 1:3, encontra-se, como aqui, com o significado de “dono”. [Cambridge]

20 E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou teus inimigos em tua mão. E deu-lhe o dízimo de tudo.

E deu-lhe o dízimo de tudo. Embora não apareça muito claramente na narrativa qual deles pagou o dízimo ao outro, o apóstolo declarou expressamente que foi Abrão quem pagou o dízimo a Melquisedeque (Hb 7:8-9), e nesse fato a identidade em princípio entre o patriarcado e a dispensação subsequente é claramente vista. [JFU]

21 Então o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me as pessoas, e toma para ti a riqueza.

o rei de Sodoma. Este versículo retoma a narrativa de Gênesis 14:17. O episódio de Melquisedeque é um parêntesis na história. [Cambridge]

22 E respondeu Abrão ao rei de Sodoma: Levantei minha mão ao SENHOR Deus altíssimo, possuidor dos céus e da terra,

Levantei minha mão. Ou seja, jurei; fiz um juramento com um gesto, simbolizando o apelo a Deus. Confira Dt 32:40; Dn 12:7. [Cambridge]

23 Que desde um fio até a correia de um calçado, nada tomarei de tudo o que é teu, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão:

para que não digas: Eu enriqueci a Abrão. Abrão enfatiza o fato, (1) que ele não guerreou a fim de se tornar mais rico ou mais poderoso: (2) que ele e sua família não estarão em dívida para com o rei de Sodoma e o povo da planície. O que ele tinha feito, não era para obter lucro, mas para a segurança de seu parente Ló. Em circunstâncias diferentes, Abraão aceitou presentes (veja Gn 12:16; 20:14-16). [Cambridge]

24 Tirando somente o que os rapazes comeram, e a porção dos homens que foram comigo, Aner, Escol, e Manre; eles tomem a sua parte.

Abrão prossegue sua fala anterior especificando as duas exceções necessárias, (1) uma reivindicação para as provisões de seus 318 seguidores e (2) uma reivindicação de que uma participação justa no despojo deveria ser destinada a seus três confederados, mencionados em Gn 14:13, que se uniram aos perigos do empreendimento. De acordo com os direitos da guerra, todo o saque pertencia a Abrão, e ele generosamente renuncia à sua reivindicação. [Cambridge]

<Gênesis 13 Gênesis 15>

Introdução à Gênesis 14

Gênesis 14 nos apresenta a imagem de Abrão como um guerreiro — vigoroso, habilidoso, bem-sucedido e generoso. Ele traz a história de quatro reis, que depois de conquistarem cinco reis de Canaã, levam Ló cativo. Então Abrão, com os seus servos, os persegue e os vence, e livra a Ló. O capítulo conclui com um claro contraste entre o encontro de Abrão com Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo e com o rei de Sodoma, lugar que em breve seria destruído por causa das suas iniquidades.

Leia também uma introdução ao livro do Gênesis.

Adaptado de: Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible. Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles – fevereiro de 2018.