Bíblia

1 Coríntios 2

O assunto da pregação de Paulo, Cristo crucificado, não na sabedoria mundana, mas na celeste entre os perfeitos

1 E eu, irmãos, quando vim até vós, não vim vos anunciar o testemunho de Deus com excelência de palavras, ou sabedoria.

E eu – “Então eu” (Conybeare) como um dos instrumentos “loucos, fracos e desprezíveis” empregados por Deus (1Co 1:27-28); “orgulhando-se no Senhor”, não na sabedoria do homem (1Co 1:31). Compare 1Co 1:23, “nós”.

quando vim – (At 18:1). Se quisesse, Paulo poderia muito bem usar um estilo rebuscado, pois recebeu uma educação secular em Tarso da Cilícia, local que Estrabão preferia como escola de aprendizado à Atenas ou Alexandria; aqui, sem dúvida, ele leu os poemas de Arato (que ele cita em At 17:28), Epimênides (Tt 1:12) e Menandro (1Co 15:33). O desenvolvimento intelectual grego foi um elemento importante na preparação do caminho para o Evangelho, mas não conseguiu regenerar o mundo, mostrando que para isso é necessário um poder sobre-humano. O judaísmo helenístico (grecizado) em Tarso e Alexandria era o elo de ligação entre as escolas de Atenas e as dos rabinos. Não haveria mais local de nascimento adequado para o apóstolo dos gentios do que em Tarso, livre das influências distorcidas de Roma, Alexandria e Atenas. Ele tinha ao mesmo tempo cidadania romana, que o protegia de violência súbita. Novamente, ele foi criado na lei divina hebraica em Jerusalém. Assim, como os três elementos, o cultivo grego, a política romana (Lc 2:1) e a lei divina dada aos judeus, combinados justamente no tempo de Cristo, para preparar o mundo para o Evangelho, os mesmos três, pela maravilhosa providência de Deus, reuniram-se no apóstolo aos gentios (Conybeare e Howson).

testemunho de Deus – “o testemunho de Cristo” (1Co 1:6); portanto, Cristo é Deus. [JFB]

2 Porque não quis saber coisa alguma entre vós, a não ser Jesus Cristo, e ele crucificado.

O grego implica: “A única coisa definitiva que fiz questão de conhecer entre vocês foi a Jesus Cristo (Sua pessoa) e Ele crucificado (Seu ofício)” (Alford), não exaltado no trono terreno de Davi, mas executado como o mais vil malfeitor. O fato histórico da crucificação de Cristo provavelmente fora posto de modo menos proeminente pelos que buscavam a sabedoria humana na igreja de Corinto, para evitar ofender os pagãos eruditos e os judeus. A pessoa de Cristo e o ofício de Cristo constituem a soma do Evangelho. [JFB]

3 E eu estive convosco em fraqueza, em temor, e em grande tremor.

eu – o pregador: como 1Co 2:2 descreve o assunto, “Cristo crucificado”, e 1Co 2:4 o modo de pregar: “minha pregação não foram em palavras persuasivas”, “mas em demonstração do Espírito”.

fraqueza – pessoal e corporal (2Co 10:10; 2Co 12:79; Gl 4:13).

tremor – (compare Fp 2:12). Não temor pessoal, mas uma ansiedade tremente para cumprir um dever; conscienciosidade ansiosa, como provado pelo contraste com o “servir somente quando visto” (Ef 6:5) (Conybeare e Howson). [JFB]

4 E a minha palavra e a minha pregação não foram em palavras persuasivas de sabedoria, mas sim, em demonstração do Espírito e de poder;

minha palavra – em particular.

minha pregação – em público (Bengel). Alford explica assim, Meu discurso sobre doutrinas e minha pregação ou proclamação de fatos.

em demonstração do Espírito… – Persuasão é o meio do homem de mover seu próximo. O meio de Deus é demonstração, não deixando dúvidas e inspirando implícita fé, pela poderosa obra do Espírito (então exibida exteriormente por milagres, e interiormente trabalhando no coração, Mt 7:29, At 6:10, Hb 4:12, compare também Rm 15:19). O mesmo poder acompanha a verdade divina agora, produzindo persuasão e conversão, quando o Espírito demonstra por ela. [JFB]

5 para que a vossa fé não fosse em sabedoria humana, mas sim, no poder de Deus.

não fosse em sabedoria humana – devido sua origem e continuidade nela.

6 Contudo, falamos sabedoria entre os maduros, porém uma sabedoria não deste mundo, nem dos líderes deste mundo, que perecem.

No entanto, a pregação do Evangelho, longe de estar em contradição com a verdadeira “sabedoria”, é uma sabedoria infinitamente superior à dos sábios do mundo.

falamos – retomando “nós” (pregadores, eu, Apolo…) de “nós pregamos” (1 Co 1:28), só que aqui “falamos” se refere a algo menos público (compare 1Co 2:713, “mistério… oculto”) do que nós pregamos, que é público. Pois “sabedoria” aqui denota não toda a doutrina cristã, mas seus princípios mais sublimes e mais profundos.

maduros – Somente aqueles amadurecidos na experiência e conhecimento cristãos podem entender a verdadeira superioridade da sabedoria cristã que Paulo pregou. Distinguido não apenas de homens mundanos e naturais, mas também de bebês, que embora “em Cristo” retêm muito do que é “carnal” (1Co 3:1-2), e não podem entender as verdades mais profundas do cristianismo (1Co 14:20; Fp 3:15; Hb 5:14). Paulo não quer dizer com o “mistério” ou “sabedoria oculta” (1Co 2:7) alguma tradição oculta distinta do Evangelho (como a Disciplina arcani da Igreja de Roma e a Doutrina da Reserva), mas o desdobramento dos tesouros do conhecimento, uma vez escondidos nos conselhos de Deus, mas agora anunciados a todos, que seriam inteligentemente compreendidos na proporção em que a vida interior do ouvinte se transformasse perfeitamente na imagem de Cristo. Compare exemplos de tais “mistérios”, isto é, verdades cristãs mais profundas, não pregadas na primeira vinda de Paulo a Corinto, quando ele se limitou aos elementos fundamentais (1Co 2:2), mas agora falou aos “perfeitos” (1Co 15:51; Rm 11:25; Ef 3:5, Ef 3:6). “Perfeito” é usado não de perfeição absoluta, mas relativamente a “bebês”, ou aqueles menos maduros no crescimento cristão (compare Fp 3:1215, com 1Jo 2:12-14). “Deus” (1Co 2:7) se opõe ao mundo, os apóstolos aos “líderes (grandes e eruditos) deste mundo” (1Co 2:8; compare 1Co 1:20) (Bengel).

que perecem – são nada (1Co 1:28). Eles são transitórios, não imortais. Portanto, a sabedoria deles não é real (Bengel). [JFB]

7 Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos tempos para a nossa glória;

sabedoria de Deus – enfaticamente contrastada com a sabedoria dos homens e deste mundo (1Co 2:5-6).

em mistério – conectado em construção com “falamos”: Falamos como lidando com um mistério; isso não é algo para ser mantido oculto, mas o que até então era assim, mas agora é revelado. Enquanto os mistérios pagãos eram revelados apenas a uns poucos escolhidos, os mistérios do Evangelho eram conhecidos por todos os que obedeciam à verdade. “Se o nosso Evangelho está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto” (2Co 4:3), “a quem o Deus deste mundo cegou”. Normalmente usamos “mistério” em referência àqueles de quem o conhecimento é retido; os apóstolos, em referência àqueles a quem é revelado (Whately). Está oculto antes de ser apresentado, e quando é apresentado, ainda permanece oculto para aqueles que são imperfeitos (Bengel).

ordenou – literalmente, “preordenou” (compare 1Co 2:9), “preparou para os que o amam”.

antes dos tempos – isto é, desde a eternidade. Isso antecipa infinitamente a sabedoria mundana na antiguidade. Foi antes não apenas a sabedoria do mundo, mas eternamente antes do próprio mundo e de suas eras.

para a nossa glória – a nossa agora e a partir daqui, do “Senhor da glória” (1Co 2:8), que reduz a nada “os príncipes deste mundo”. [JFB]

8 a sabedoria que nenhum dos líderes deste mundo conheceu. Porque, se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado ao Senhor da glória.

a sabedoria que – A prova mais forte da destituição do homem natural da sabedoria celestial.

crucificado ao Senhor da glória – implicando a conexão inseparável da humanidade de Cristo e Sua divindade. O Senhor da glória (que Ele tinha em Seu próprio direito antes do mundo, Jo 17:424) foi crucificado. [JFB]

9 Porém, assim como está escrito: 'As coisas que o olho não viu, e não subiram que ao coração humano, são as que Deus preparou para os que o amam'.

o olho não viu… – “Ninguém senão tu, ó Deus, vê estes mistérios, e Deus os revelou a nós pelo seu Espírito”.

subiram – Um hebraísmo (compare com Jr 3:16). Em Is 64:4 “age em favor daquele que nele espera”; aqui, “para os que o amam”. Pois Isaías falou àqueles que esperavam a aparição futura do Messias; Paulo, para aqueles que O amam como tendo realmente aparecido (1Jo 4:19); compare 1Co 2:12, “as coisas que por Deus nos são dadas”. [JFB]

10 Mas Deus as revelou para nós pelo seu Espírito. Porque o Espírito investiga todas as coisas, até as profundezas de Deus.

para nós – o “perfeito” ou plenamente amadurecido na experiência cristã (1Co 2:6). Homens inteligentes podem entender o esboço das doutrinas; mas sem a revelação do Espírito Santo para o coração, estas serão para eles um mero esboço – um esqueleto, talvez correto, mas necessitando de vida (Whatley), (Lc 10:21).

pelo seu Espírito – A inspiração dos pensamentos faz o cristão (1Co 3:16; 1Co 12:3; Mt 16:1; Jo 16:13; 1Jo 2:2027); a das palavras, o PROFETA (2Sm 23:1, 2Sm 23:2; 1Rs 13:1, 1Rs 13:5), “pela palavra do Senhor” (1Co 2:13; Jo 20:30-31, 2Pe 1:21). Os segredos da revelação são secretos para alguns, não porque aqueles que os conhecem não os revelam (pois, na verdade, a própria noção de revelação implica um desvendar do que havia sido velado), mas porque aqueles a quem são anunciados não têm a vontade ou o poder de compreendê-los. Por isso, sozinho, o Espírito ensina esses segredos (Sl 25:14; Pv 3:32; Jo 7:17; Jo 15:15).

o Espírito investiga – operando em nós e com nossos espíritos (compare Rm 8:1626-27). O Antigo Testamento nos mostra Deus (o Pai) para nós. Os Evangelhos, Deus (o Filho) conosco. Os Atos e Epístolas, Deus (o Espírito Santo) em nós (Monod), (Gl 3:14).

até as profundezas de Deus – (Sl 92:5). Sua natureza divina, atributos e conselhos. O Espírito se deleita em explorar as infinitas profundezas de Sua própria mente divina, e depois revelá-las a nós, de acordo com a nossa capacidade de entendê-las (Dt 29:29). Isso prova a personalidade e a divindade do Espírito Santo. A divindade não pode ser separada do Espírito de Deus, como a humanidade não pode ser separada do espírito do homem (Bengel). [JFB]

11 Pois quem dentre os seres humanos sabe as coisas do ser humano, senão o espírito do ser humano que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.

ninguém sabe as coisas de Deus – nem anjo ou homem. Isto prova a impossibilidade de qualquer conhecimento das coisas de Deus, exceto pelo Espírito de Deus (que sozinho os conhece, pois mesmo no caso do homem, tão infinitamente inferior em mente a Deus, nenhum de seus semelhantes, mas somente seu próprio espírito sabe as coisas escondidas dentro dele). [JFB]

12 Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas sim, o Espírito que provém de Deus; para que saibamos as coisas que por Deus nos são dadas;

Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo – o espírito maligno “que agora opera nos filhos da desobediência” (Ef 2:2). Esse espírito é intrínseco ao não regenerado e não precisa ser recebido.

Espírito que provém de Deus – isto é, que vem de Deus. Nós o recebemos somente pelo dom de Deus, cujo Espírito é, enquanto que o nosso espírito é o espírito que está em nós homens (1Co 2:11). [JFB]

13 as quais também falamos, não com palavras que a sabedoria ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina, interpretando coisas espirituais por meios espirituais.

também – Nós não apenas conhecemos pelo Espírito Santo, mas também falamos das “coisas que por Deus nos são dadas” (1Co 2:12).

interpretando coisas espirituais por meios espirituais – expondo a Escritura do Antigo Testamento inspirada pelo Espírito, em comparação com o Evangelho que Jesus pelo mesmo Espírito revelou (Grotius); e, inversamente, ilustrando os mistérios do Evangelho comparando-os com os tipos do Antigo Testamento (Crisóstomo). Assim a palavra grega é traduzida, “interpretando” (2Co 10:12).

Já Wahl traduz assim, “explicando (como o grego é traduzido, Gn 40:8, a Septuaginta) para homens espirituais (isto é, ensinados pelo Espírito), coisas espirituais (as coisas que nós mesmos somos ensinados por o Espírito)”. Somente os homens ensinados pelo espírito podem compreender as verdades espirituais. Isso está de acordo com 1Co 2:6, 9,10, 14, 15, 1Co 3:1.

Entretanto Alford entende: “Juntando (combinando) espirituais com espirituais”; isto é, anexando palavras espirituais às coisas espirituais, as quais não deveríamos fazer, se usássemos palavras de sabedoria mundana para expor as coisas espirituais (1Co 2:1, 4; 1Pe 4:11).

Talvez a generalidade dos neutros seja pensada para compreender essas várias noções. Comparando ou combinando espirituais com espirituais; insinuando tanto que as coisas espirituais são apenas adequadas para pessoas espirituais (assim as pessoas “coisas” compreendidas, 1Co 1:27), e também que verdades espirituais só podem ser combinadas com palavras espirituais (não mundanas); e por fim, as espirituais do Antigo e do Novo Testamento só podem ser entendidas por comparação ou combinação mútua, não pela combinação com a “sabedoria” mundana ou percepções naturais (1Co 1:21-22; 1Co 2:14-9; compare Sl 119:18). [JFB]

14 Mas o ser humano natural não compreende as coisas que são do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não as pode entender, porque se compreendem espiritualmente.

homem natural – literalmente, “um homem de alma animal”. Em contraste com o homem espiritual, ele é governado pela alma animal, que domina seu espírito, que é sem o Espírito de Deus (Jd 1:19). Assim, o corpo animal, ou corpo liderado pela natureza animal (incluindo tanto a razão caída quanto o coração do homem), é contrastado com o corpo vivificado pelo Espírito (1Co 15:44-46). O homem carnal (o homem guiado por apetites do corpo e também por um espírito auto-exaltado, alienado da vida divina) é muito semelhante; assim também o “terreno”. “Diabólica” ou “demoníaca”; “liderada por um espírito maligno”, é o horrível caráter de tal pessoa, em seu pior tipo (Tg 3:15).

não compreende – ou não a recebe, embora lhe seja oferecido, e seja “digna de toda aceitação” (1Tm 1:15).

porque lhe são loucura – enquanto ele procura “sabedoria” (1Co 1:22).

não as pode – Ele não apenas não o faz, mas ele não pode conhecê-la e, portanto, não tem desejo de “compreendê-la” (Rm 8:7). [JFB]

15 Porém quem é espiritual compreende todas as coisas, mas não é compreendido por ninguém.

quem é espiritual – literalmente, “o (homem) espiritual”. Em 1Co 2:14, é “o ser humano natural”. O espiritual é o homem distinto de seus semelhantes, aquele em quem o Espírito governa. No não regenerado, o espírito que deveria ser o instrumento do Espírito Santo (assim é no regenerado), é substituído pela alma animal, e é inoperante, de modo que tal pessoa nunca é chamada de “espiritual”.

compreende todas as coisas – e pessoas, pelo seu verdadeiro padrão (compare 1Co 6:2-4; 1Jo 4:1), na medida em que ele é espiritual. Ele tem uma visão prática das verdades do Evangelho, embora não seja infalível em todos os pontos teóricos. Se um indivíduo pode ter o Espírito sem ser infalível, por que a Igreja não pode ter o Espírito e, no entanto, não ser infalível (uma refutação do apelo de Roma pela infalibilidade da Igreja, de Mt 28:20; Jo 16:13)? Como o crente e a Igreja têm o Espírito, e ainda não são, portanto, impecáveis, assim ele e a Igreja têm o Espírito e, no entanto, não são infalíveis ou impecáveis. Ele e a Igreja são infalíveis e impecáveis, apenas em proporção ao grau em que são conduzidos pelo Espírito. O Espírito leva a toda verdade e santidade; mas Sua influência sobre os crentes e sobre a Igreja é ainda parcial. Só Jesus, que tinha o Espírito sem medida (Jo 3:34), é infalível e impecável. [JFB]

16 Pois quem conheceu a mente do Senhor, para que o possa instruir? Mas nós temos a mente de Cristo.

Pois – prova de 1Co 2:15, que o homem espiritual “não é compreendido por ninguém”. Para julgar o homem espiritual, o homem comum deve “conhecer a mente do Senhor”. Mas quem dos homens comuns sabe isso?

para que o possa instruir – isto é, de modo a poder endireitá-lo como seu conselheiro (citado em Is 40:13-14). Assim, a Septuaginta traduz o verbo grego, que significa “provar”, em At 9:22. Os homens naturais que julgam os homens espirituais, vivendo de acordo com a mente de Deus (“Nós temos a mente de Cristo”), estão virtualmente querendo instruir a Deus e mudar seu pensamento, como conselheiros que corrigem o seu rei.

temos a mente de Cristo – em nosso grau de capacidade de apreendê-la. Is 40:13-14 refere-se a Jeová: portanto, como é aplicado aqui a Cristo, Ele é Jeová. [JFB]

<1 Coríntios 1 1 Coríntios 3>

Leia também uma introdução à Primeira Epístola aos Coríntios.

Adaptado de: Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible. Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles – fevereiro de 2018.